Meu Twitter

quinta-feira, 31 de março de 2016

Para você quem é Jesus?




terça-feira, 29 de março de 2016

Louvor e os ídolos da Cultura! | Josemar Bessa

segunda-feira, 28 de março de 2016

Cristo cumpriu os dez Mandamentos


Adão quebrou os dez mandamentos no Éden. Mas Cristo guardou os dez mandamentos no “deserto”, sob circunstâncias muito mais intensas do que aquelas às quais Adão foi submetido. Guardou o primeiro mandamento. Ele trouxe glória a Deus o Pai enquanto esteve na terra (Jo 17.4). Temeu, creu, e confiou em seu Pai (Hb 2.13; 5.7; Lc 4.1-12). Cristo zelou pela glória de seu Pai (Jo 2.17) e foi constantemente grato ao seu Pai (Jo 11.41). Ele prestou completa obediência ao Pai em todas as coisas (Jo 10.17; 15.10). Guardou o segundo mandamento. Ninguém jamais cultuou como Cristo (Lc 4.16). Ele leu, pregou, orou e cantou a Palavra de Deus com um coração puro (Sl 24.3-4). Ele condenou o falso culto (Jo 4.22; Mt 15.9). Além disso, aquele que era a imagem visível de Deus não precisou fazer imagens ilícitas de Deus. Guardou o terceiro mandamento. Como portador da imagem de Deus (Cl 1.15), ele revelou o Pai de modo perfeito (Jo 14.9). Falou somente aquilo que havia recebido do Pai (Jo 12.49). Em outras palavras, ele jamais tomou o nome de Deus em vão, mas falou apenas a verdade sobre o Pai e trouxe glória ao Pai por viver em conformidade com quem ele é (o Filho de Deus). Guardou o quarto mandamento. “Entrou num dia de sábado, segundo o seu costume, na sinagoga…” (Lc 4.16). Ele fez obras de piedade, misericórdia e necessidade no dia de descanso (e.g.: Mc 2.23-28). Além disso, o Senhor do Sábado assegurou nosso sabá eterno por meio de sua morte na cruz, permanecendo no sepulcro no sábado, e ressurgindo no domingo. Guardou o quinto mandamento. Ele sempre fez aquilo que agradava a seu Pai celestial (Jo 8.29). Sobre a cruz, mesmo enquanto estava morrendo, preocupou-se em cuidar de sua mãe (Jo 19.27). Ele também guardou as leis terrenas (Mc 12.17; Mt 17.24-27). Guardou o sexto mandamento. Jesus preservou a vida. Ele fez isso física e espiritualmente. Ele salvou pecadores de seus pecados (Jo 5.40). E também curou muitas pessoas (Mt 4.23). Foi manso, gentil, amável e pacífico enquanto esteve na terra (e.g.: Mt 11.29). Sua vida foi de misericórdia e compaixão (e.g.: Lc 18.35-43). Guardou o sétimo mandamento. Cristo, o marido, entregou sua vida por sua noiva (Ef 5.22-33). Embora eu não tenha dúvidas de que ele achava algumas mulheres atrativas, ele jamais cruzou os limites adequados com respeito à interação entre homens e mulheres, e seus pensamentos sempre foram puros com respeito a pessoas do sexo oposto (cf. 1Tm 5.2). Guardou o oitavo mandamento. Cristo doou livremente (Jo 2.1-11). Ele se opôs ao roubo (Jo 2.13-17). João 2 retrata, entre outras coisas, Cristo guardando o oitavo mandamento. Aquele que era rico se tornou pobre para que nós, em nossa pobreza, pudéssemos nos tornar ricos (2Co 8.9). Guardou o nono mandamento. Ele sempre falou a verdade (Jo 8.45-47) porque falou somente as palavras que o Pai lhe havia dado (Jo 12.49). Ele defendeu a verdade porque ele é a Verdade (Jo 1.14, 17; 14.6). Ele não maquiou a verdade (Mt 23), não a falou fora de tempo ou a sonegou (Mt 26.64). Guardou o décimo mandamento. Aquele que é dono do céu e da terra é aquele que também disse: “As raposas têm covis, e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9.58). Aquele que poderia facilmente saciar sua própria necessidade e desejo contentou-se com aquilo que vinha da mão do Pai (Lc 4.1-12). Ele não cobiçou aquilo que não era propriamente seu, mas com paciente resistência recebeu sua herança por meio da cruz. Nos círculos reformados devemos, em nossa pregação, fazer um melhor trabalho em explicar como Cristo guardou perfeitamente a lei. Uma coisa é dizer e sempre repetir: “Jesus guardou a lei perfeitamente por nós [como um pacto de obras] para que pudéssemos ser salvos”; mas outra coisa é explicar precisamente como ele guardou a lei e o que estava envolvido nessa guarda da lei. Ouvir sobre a obediência ativa de Cristo e sobre a imputação gratuita de Deus a nós, por meio da fé, dessa obediência ativa, não deve nunca ser algo que se resuma a frases de efeito.

Adão quebrou os Dez Mandamentos


Quais mandamentos Adão quebrou no Jardim quando ele e sua esposa comeram da árvore que Deus ordenou não comessem (Gn 2.16-17; 3.6)? Creio que ele quebrou cada um dos dez mandamentos, e não apenas um ou dois mandamentos específicos (cf. Tiago 2.10). Em sua incredulidade, quebrou o primeiro mandamento. Como o Reformador corretamente destacou, o primeiro pecado de Adão foi a incredulidade. Ele falhou em amar a Deus, e em lugar disso demonstrou um amor próprio pecaminoso. Ele estava buscando satisfazer-se. Seu pecado incluiu “incredulidade, falta de confiança, desespero, orgulho, presunção, [e] covardia”. Ele também falhou em depender do Espírito Santo. Quebrou o segundo mandamento. Deus deveria ser cultuado de uma maneira específica, que incluía aquilo que Adão fora ordenado fazer, bem como aquilo que fora ordenado não fazer. Mas Adão transgrediu as leis da correta adoração. Adão tolerou a falsa religião e (como profeta, sacerdote, e rei) não guardou o templo de Deus. Ele deveria ter esmagado a cabeça da serpente. Quebrou o terceiro mandamento. Como filho de Deus, e alguém que carregava a imagem de Deus, Adão trouxe desonra ao seu Pai. Deus deve ser honrado por meio daqueles que carregam o seu nome. Além disso, a palavra de Deus — a Palavra com a qual falou a Adão e o alertou — não foi reverentemente usada por Adão; este fracassou em falar a teologia verdadeira à serpente. Quebrou o quarto mandamento. A desobediência de Adão o impediu de entrar no descanso sabático eterno. Ele deveria, como nós, fazer todo o esforço para entrar no descanso de Deus (Hb 4.11). Ele não “descansou” em Deus quando permitiu que sua esposa comesse da árvore que ele fora ordenado não comer. Ele pôs em jogo seu descanso eterno, o que é uma violação do sabá. Quebrou o quinto mandamento. Adão não honrou seu pai. Seus dias teriam sido prolongados caso o tivesse feito. Quebrou o sexto mandamento. Adão se tornou um assassino perverso, tal como Satanás, quando pecou contra Deus (Rm 5). Ele tinha, para com sua posteridade, o dever de lhes garantir vida, mas, ao invés disso, lhes trouxe morte. Quebrou o sétimo mandamento. Adão não mostrou amor para com sua esposa quando permaneceu silente e deixou que ela falasse com o diabo. Ele deveria ter protegido Eva, mas não o fez. Quebrou o oitavo mandamento. Ele permitiu que sua esposa furtasse. Ela tomou aquilo que não deveria tomar. E Adão participou no furto. Quebrou o nono mandamento. Ele se tornou como o pai da mentira (Jo 8.44) ao falhar em falar a verdade sobre Deus e defender a bondade de Deus quando questionado. Adão deveria ter rebatido a calúnia de Satanás. Ele permitiu que a mentira fosse propagada quando deixou que Eva tomasse do fruto proibido. Quebrou o décimo mandamento. Adão não se contentou com sua própria situação. Ele estava descontente com aquilo que Deus lhe havia dado. E cobiçou aquilo que Deus havia proibido. Tudo isso explica por que a apostasia de Adão foi tão má. Ele não cometeu um simples equívoco, mas pecou deliberadamente contra Deus e contra o próximo. Em sua incredulidade, ele quebrou todos os mandamentos de Deus, e não apenas um. Em nosso próprio pecado, nós raramente, se é que alguma vez, quebramos um mandamento. Nosso pecado quase sempre envolve a quebra de vários mandamentos ao mesmo tempo. Além disso, nossos pecados contra a segunda tábua da lei são geralmente uma falha em guardar a primeira tábua da lei. Quando lido com pessoas que, por exemplo, têm problemas com o sétimo mandamento, minha resposta é lidar com os quatro primeiros mandamentos, e não apenas com o sétimo. No futuro, pretendo tratar de como Cristo guardou todos os dez mandamentos no “deserto”, em resposta à quebra dos dez mandamentos por parte de Adão no Éden.

A Doutrina da ira de Deus


Se os pregadores do passado em alguns momentos sofreram de uma fascinação doentia pelo inferno, os ministros de hoje, incluindo não poucos líderes emergentes, são culpados de uma ambivalência indevida sobre o assunto. […] É certo que não existe espaço para leviandade no que se refere à ira de Deus, mas será que não há lugar para uma advertência apaixonada e viva? Não é bíblico deixar para trás o agnosticismo em relação ao inferno e implorar às pessoas em favor de Cristo, dizendo “reconciliem-se com Deus” (2Co 5:20)? Será que nosso evangelismo se degenera, nossa pregação carece de autoridade e nossas congregações perdem foco porque não temos a doutrina do inferno bem clara diante de nós para colocar nossa face como seixo na direção de Jerusalém? Precisamos da doutrina da punição eterna. Por repetidas vezes no Novo Testamento descobrimos que entender a justiça divina é essencial para nossa santificação. Crer no julgamento de Deus de fato nos ajuda a ser mais semelhantes a Jesus. Em resumo, precisamos da doutrina da ira de Deus. Primeiro, precisamos da ira de Deus para nos mantermos honestos em relação ao evangelismo. Paulo discutiu com Félix sobre justiça, domínio próprio e juízo vindouro (At 24:25). Precisamos fazer o mesmo. Sem a doutrina do inferno, nossa tendência é nos envolvermos em todo tipo de coisas importantes que honram a Deus, mas negligenciarmos aquilo que importa para toda a eternidade, que é insistir com os pecadores a que se reconciliem com Deus. Segundo, precisamos da ira de Deus para perdoar nossos inimigos. A razão de podermos abrir mão de pagar o mal com o mal é que confiamos na promessa do Senhor, segundo a qual ele retribuirá os ímpios. A lógica de Paulo é sadia. “Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: ‘Minha é a vingança; eu retribuirei’” (Rm 12:19). A única maneira de deixar para trás nossas feridas mais profundas e as traições que sofremos é descansar seguros de que todo pecado contra nós foi pago na cruz ou será punido no inferno. Não precisamos buscar justiça com as próprias mãos, pois Deus será nosso justo juiz. Terceiro, precisamos da ira de Deus para podermos arriscar nossa vida em favor de Jesus. A devoção radical necessária para sofrer pela palavra de Deus e o testemunho de Jesus vem, em parte, da segurança que temos de que Deus nos vindicará no final. É por isso que os mártires embaixo do trono clamarão: “Até quando, ó Soberano, santo e verdadeiro, esperarás para julgar os habitantes da terra e vingar o nosso sangue?” (Ap 6:10). Eles pagaram o preço derradeiro por sua fé, mas seus clamores manchados de sangue serão respondidos um dia. Sua inocência será estabelecida quando Deus finalmente julgar os que os perseguiram. Quarto, precisamos da ira de Deus para viver uma vida santa. Paulo nos adverte de que Deus não pode ser zombado. Colheremos aquilo que plantarmos. Somos levados a viver uma vida de pureza e boas obras em função da recompensa prometida pela obediência e a maldição prometida pela desobediência. Se vivermos para agradar à carne, colheremos de Deus a destruição. Mas, se vivermos para agradar ao Espírito, colheremos a vida eterna (Gl 6:6-7). Às vezes os ministros hesitam diante da ideia de motivar pessoas com a ameaça da punição eterna. Mas não foi essa a abordagem de Jesus quando ele disse “não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno” (Mt 10:28)? Às vezes precisamos literalmente arrancar o inferno das pessoas por meio do medo. Quinto, precisamos da ira de Deus para entender o significado da misericórdia. Sem a ira divina, a misericórdia divina não tem sentido. Somente quando sabemos que éramos merecedores da ira (Ef 2:3), que já estávamos condenados (Jo 3:18) e que enfrentaríamos o inferno como inimigos de Deus, não fosse a misericórdia imerecida (Rm 5:10), é que podemos cantar de todo o coração “preciosa a graça de Jesus, que um dia me salvou”. Sexto, precisamos da ira de Deus para entender como o céu será maravilhoso. Jonathan Edwards é famoso (ou mal-afamado) por seu sermão “Pecadores nas mãos de um Deus irado”. Ele ainda é lido nas aulas de literatura americana, normalmente como uma caricatura do espírito puritano da Nova Inglaterra colonial. Mas poucas pessoas percebem que Edwards também pregou sermões como “O céu é um mundo de amor”. Diferentemente da maioria de nós, Edwards via em cores vívidas o terror do inferno e a beleza do céu. Não podemos ter um quadro claro de um sem o outro. É por isso que a descrição da Nova Jerusalém celestial também contém uma advertência aos covardes, aos incrédulos, aos depravados, aos assassinos, aos que cometem imoralidade sexual, aos que praticam feitiçaria, aos idólatras e aos mentirosos, cujo lugar “será no lago de fogo que arde com enxofre” (Ap 21:8). É improvável que desejemos nossa salvação final sem saber do que somos salvos. Sétimo, precisamos da ira de Deus para sermos motivados a cuidar de nossos irmãos pobres. Todos nós conhecemos a afirmação de que os cristãos estão de tal modo voltados para o céu que não prestam para nada na terra. A ideia é que, se tudo o que pensarmos for apenas céu e inferno, terminaremos ignorando ministérios de compaixão e justiça social. Mas que melhor impulso para a justiça social do que a sóbria advertência de Jesus de que, se deixarmos de cuidar do menor de nossos irmãos, iremos para a punição eterna? (Mt 25:31-46)? A ira de Deus é um motivador para que mostremos compaixão aos outros, pois, sem amor, como diz João, não temos a vida eterna e, se não compartilharmos nossos bens materiais com os que passam necessidades, não temos amor (1Jo 3:17). Oitavo, precisamos da ira de Deus para nos prepararmos para a volta do Senhor. Devemos manter as lâmpadas cheias, os pavios aparados, as casas limpas, a vinha cuidada, os trabalhadores ocupados e os talentos investidos a fim de que não sejamos pegos despreparados no dia do acerto de contas. Somente quando crermos plenamente na ira iminente de Deus e tremermos diante da ideia da punição eterna é que ficaremos despertos, alertas e preparados para que Jesus venha outra vez e julgue os vivos e os mortos. ________________________________________ * Trecho extraído do capítulo 9 do excelente livro Não quero um pastor bacana – e outras razões para não aderir à igreja emergente, de Kevin DeYoung e Ted Kluck (São Paulo: Mundo Cristão, 2011).

O Problema do Conhecimento Médio


Mas os jesuítas, entrando na discussão [sobre o pré-conhecimento de Deus], fizeram mudança. Com o intuito de articular a onisciência de Deus com a liberdade humana, seguindo a linha semi-pelagiana, eles introduziram o chamado conhecimento médio(media scientia) entre o conhecimento “necessário” e o conhecimento “livre” de Deus. Com esse conhecimento médio eles se referem a um conhecimento divino de eventos contingentes que é logicamente antecedente aos seus decretos. O objeto desse conhecimento ao é o meramente possível que nunca será realizado, nem aquilo que, em virtude de um decreto divino, é certo de acontecer, mas as possibilidades de que dependam, para sua realização, de uma ou outra condição. Ao governar o mundo, Deus faz que muitos resultados possíveis dependam de condições e sabe, com antecedência, o que fará, caso essas condições sejam ou não cumpridas pelos seres humanos. Em todos os casos, portanto, Deus está pronto. Ele antevê e conhece todas as possibilidades e toma suas decisões e providências levando em conta todas essas possibilidades. Ele soube, com antecedência, o que faria se Adão caísse e também se ele não caísse; se Davi fosse ou não até Queila; se Tiro e Sidom se arrependessem ou não. Portanto, o conhecimento que Deus tem de eventos contingentes precede seu decreto a respeito de eventos futuros “absolutos”. Embora os seres humanos, a cada momento, tomem suas decisões livres e independentes, nunca poderão surpreender Deus com as decisões que tomam ou desfazer seus planos, pois, em seu pré-conhecimento, Deus levou em conta todas as possibilidades. Essa teoria do conhecimento mediado foi apoiada por numerosos textos da Escritura que atribuem a Deus conhecimento daquilo que aconteceria em um dado caso se alguma condição fosse ou não fosse cumprida(e.g., Gn 11.6; Êx. 3.19; 34.16; Dt. 7.3, 4; 1Sm 23.10 – 13; 25.29ss; 2Sm 12.8; 1Rs 11.2; 2Rs 2.10; 13.19; Sl 81.14 – 16; Jr. 26.2, 3; 38.17 – 20; Ez 2.5 – 7; 3.4 – 6; Mt. 11.21, 23; 24.22; 26.53; Lc. 22.66 – 68; Jo. 4.10; 6.15; At. 22.18; Rm. 9.29; 1Co 2.8). Embora, de fato, tenha recebido oposição dos tomistas e agostinianos (e.g., Bannez, os salmanticenses [carmelitas de Salamanca, Espanha] e Billuart), essa teoria do conhecimento médio também foi fervorosamente defendida pelos molinistas e congruístas (Suárez, Belarmino, Lessius, etc). O temor do Calvinismo e do jansenismo favoreceu essa teoria na Igreja Católica e, de maniera mais ou menos pronunciada, ganhou aceitação expressa por parte de quase todos os teólogos católicos. Desse modo, a linha de pensamento expressa por Agostinho foi abandonada e a de Orígenes foi recuperada. Ainda que a teologia grega tenha tomado essa posição desde o princípio, a teologia católica romana agora a seguiu. Os luteranos e os remonstrantes também não se mostraram indispostos com essa teoria. Em tempos modernos, muitos teólogos afirmaram, aproximadamente da mesma forma, que, para Deus, também, o mundo é um conhecimento médio. Ele, de fato, pré-conhece os eventos contingentes futuros como possíveis, mas descobre, com o mundo, se eles serão realizados ou não. Para todos os casos, porém, ele conhece “uma ação que se encaixará precisamente na ação da criatura, seja o que for que possa acontecer”. Ele estabeleceu o esboço do plano do mundo, mas deixa o enchimento desse esboço por conta das criaturas”. Em contraste com essa linha de pensamento, seguindo o exemplo de Agostinho, os reformados rejeitaram a teoria de um “pré-conhecimento nu”(nuda praescientia) e o “conhecimento médio”(media scientia). Ora, com respeito a esse conhecimento médio, a pergunta não é se as coisas [ou eventos] não estão frequentemente relacionadas umas às outras por um tipo de conexão condicional, que é conhecida e desejada pelo próprio Deus. se isso fosso tudo o que ele quer dizer, ele seria aceito sem qualquer dificuldade, assim como Gomarus e Walaeus o entenderam e reconheceram nesse sentido. Entretanto, a teoria do conhecimento tem um objetivo diferente: se propósito é harmonizar a noção pelagiana da liberdade da vontade com a onisciência de Deus. Nessa interpretação, a vontade humana é, por sua natureza, indiferente. Ela tanto pode fazer uma coisa quanto outra. ela não é determinada nem por sua própria natureza nem pelas várias circunstâncias nas quais é colocada. Embora as circunstâncias possam influenciar a vontade, no fim das contas ela permanece livre e escolhe conforme desejar. É claro que a liberdade da vontade assim concebida não pode se harmonizar com um decreto de Deus, aliás, ela consiste essencialmente em independência do decreto de Deus. Em vez de determinar essa vontade, Deus a deixou livre. Ele não podia determinar a vontade sem destruí-la. Com relação a essa vontade de suas criaturas racionais, deus tem de adotar uma postura de espera vigilante. Ele observa para ver o que elas farão. Ele, porém, é onisciente. Por isso ele conhece todas as possibilidades, todas as contingências e também pré-conhece todos os eventos futuros reais. Nesse contexto e conservando-o, Deus tomou todas as suas decisões e criou seus decretos. Se uma pessoa, em certas circunstâncias, aceitará a graça de Deus, ele escolheu essa pessoa para a vida eterna; se essa pessoa não crer, ela foi rejeitada. Ora, é claro que essa teoria diverge, em princípio, do ensino de Agostinho e de Tomás de Aquino. Certamente, em sua mente, o pré-conhecimento de Deus precede os eventos e nada pode acontecer se não for pela vontade de Deus. “Nada, portanto, acontece, a não ser pela vontade do Onipotente”. Não o mundo, mas os decretos são o meio pelo qual Deus conhece todas as coisas. Portanto, os eventos contingentes e as ações livres podem ser conhecidos infalivelmente em seu contexto e ordem. O escolasticismo, reconhecidamente, às vezes já expressava, nesse ponto, de um modo que diferia de Agostinho. Anselmo, por exemplo, afirmou que o pré-conhecimento não implicava uma “necessidade interna e antecedente”, mas apenas uma “necessidade externa e consequente”. E Tomás de Aquino, de fato, acreditava que Deus eterno e certamente conhece os eventos futuros contingentes de acordo com o estado no qual eles realmente estão, isto é, de acordo com sua própria imediação, mas que, em suas “causas imediatas”, eles são contingentes e indeterminados. Isso, porém, não altera o fato de que, com relação à sua “causa primária”, esses eventos futuros contingentes são absolutamente certos e, portanto, não podem ser chamados de contingentes. E, em outro ponto, ele novamente afirma que “tudo que existe foi destinado a existir antes que viesse à existência, porque existia por sua própria causa para que pudesse vir à existência”. A doutrina do conhecimento médio, porém, representa os eventos futuros contingentes como contingentes e livres também em relação a Deus. Isso é feito não somente com relação à predestinação de Deus, mas também com relação ao seu pré-conhecimento, como em Orígenes, em que as coisas não acontecem porque Deus as conhece, mas Deus as conhece porque elas acontecerão. Portanto, a sequência não é conhecimento necessário, conhecimento de visão, o decreto de criar (etc), mas, em vez disso, é conhecimento necessário, conhecimento médio, decreto de criar (etc), e o conhecimento de visão deus não deriva seu conhecimento dos livres atos dos seres humanos de seu próprio ser, de seus decretos, mas da vontade das criaturas. Deus, portanto, torna-se dependente do mundo, extrai do mundo conhecimento que ele não tinha e não pode obter por si mesmo e, portanto, em seu conhecimento, deixa de ser um, simples, independente – isto é, deixa de ser Deus. Inversamente, a criatura, em grande parte, torna-se independente diante de Deus. Ela, de fato, em um momento, recebe o “ser”(esse) e o “ser capaz”(posse) de Deus, mas, agora, tem a “volição”(velle) completamente em suas próprias mãos. Ela soberanamente toma suas próprias decisões, realiza ou não realiza alguma coisa de forma totalmente independente de um decreto divino anterior. Uma coisa pode, portanto, vir à existência totalmente à parte da vontade de Deus. A criatura é, agora, criadora, autônoma, soberana: toda a história do mundo é tirada das mãos de Deus e colocada em suas mãos. Primeiro os seres humanos decidem, depois Deus responde com um plano que corresponde a essa decisão. Ora, se essa decisão ocorreu – como no caso de Adão – somos capazes de concebê-la. Mas decisões de maior ou menor importância ocorrem milhares de vezes em toda vida humana. O que podemos pensar, então de um Deus que sempre espera todas essas decisões e mantém à mão um estoque de todos os planos possíveis para todas as possibilidades? O que, então, resta até mesmo de um esboço de um plano mundial quando sua execução é deixada nas mãos dos seres humanos? E de que vale u m governo cujo executivo é o escravo de seus próprios subordinados? Na teoria do conhecimento médio, é exatamente isso o que acontece com Deus. Deus é um mero espectador, enquanto os seres humanos decidem. Não é Deus que faz distinção entre as pessoas, mas as pessoas é que se distinguem. A graça é concedida de acordo com o mérito e a predestinação depende das boas obras. As ideias às quais a Escritura, em toda parte, opõe-se e que Agostinho rejeitou em sua polêmica contra Pelágio são transformadas na doutrina católica romana padrão pelo ensino dos jesuítas. Os proponentes do conhecimento médio, de fato, recorrem a muitos textos da Escritura, mas totalmente sem fundamento. Não há dúvida de que a Escritura reconhece o fato de que Deus inseriu as coisas (eventos, etc) em uma rede variada de conexões umas com as outras, e que essas conexões são, frequentemente, de natureza condicional, de modo que uma coisa não pode acontecer se outra coisa não acontecer primeiro. [Por exemplo], sem a fé não há salvação, sem o trabalho não há sustento, etc. No entanto, os textos citados pelos jesuítas para fundamentar a teoria do conhecimento médio não provam o que precisa ser provado. Reconhecidamente, eles falam sobre condição e cumprimento, obediência e promessa, aceitação e consequência daquilo que acontecerá se um ou outro caminho for escolhido. No entanto, nenhum desses textos nega que, em todos os casos, Deus – embora fale aos seres humanos e lide com eles em termos humanos – conhecia e determinou aquilo que será realizado – presente em Deus somente como uma ideia – e aquilo que é certo e foi decretado por Deus não há uma área que possa ser controlada pela vontade dos seres humanos. Uma coisa sempre pertence a uma área ou a outra. se ela é somente uma possibilidade e nunca será realizada, ela é objeto do conhecimento “necessário” de Deus e se, um dia, ela realmente será realizada, ela é conteúdo de seu conhecimento “livre”. Não há um terreno médio entre os dois, não há conhecimento “médio”. As teorias do conhecimento médio, além disso, não alcançam seu objetivo. Elas têm o objetivo de colocar a liberdade da vontade humana – no sentido de indiferença – em harmonia com o pré-conhecimento divino. Ora, elas alegam que esse pré-conhecimento concebido como conhecimento médio deixa a conduta humana totalmente livre, não-necessária. De fato, isso está correto, a não ser que, nesse caso, ele deixe de ser pré-conhecimento. Se Deus conhece infalivelmente com antecedência o que uma pessoa fará em determinado caso, ele só pode pré-conhecer isso se os motivos da pessoa determinarem sua vontade em uma direção específica, e isso, portanto, não consistiria indiferença. Inversamente, se essa vontade fosse indiferente, o pré-conhecimento seria impossível, e só existiria um conhecimento post-factum. O pré-conhecimento de Deus a vontade concebida como arbitrariedade são mutuamente excludentes. Pois, como Cícero já dizia, “se ele conhece, isso certamente acontecerá, mas, se isso obrigatoriamente deve acontecer, não existe algo como o acaso”. Portanto, juntamente com Agostinho, devemos procurar a solução do problema em outra direção. A liberdade da vontade não consiste, como descobriremos adiante, em indiferença, arbitrariedade ou acaso, mas em “prazer racional”. Esse prazer racional, em vez de estar em conflito com o pré-conhecimento de Deusa, é implicado e sustentado por ele. A vontade humana – juntamente com sua natureza, antecedentes e motivos, suas decisões e consequências – está integrada à “ordem de causas que é certa para Deus e abrangida por seu pré-conhecimento”. No conhecimento de Deus, as coisas estão relacionadas na mesma rede de conexões nas quais ocorrem na realidade. Não é pré-conhecimento nem predestinação aquilo que intervém, vindo de cima, com força de imposição. Toda decisão humana, todo ato humano é motivado, em vez disso, por aquilo que o precede, e, nessa rede de conexões, está incluído no conhecimento de Deus. conservando sua própria natureza conhecida e ordenada por Deus, os eventos contingentes e as ações livres estão ligados na ordem de causas que, pouco a pouco, nos é revelada na história do mundo. FONTE: BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 204 – 209.

A Trindade


O cristianismo sempre teve seus oponentes, incluindo muitos que se professam cristãos. Alguns desses inimigos da fé menosprezam a doutrina e louvam a prática, exortando os cristãos a mais e mais ações em vez de aprendizado inútil, especulação e controvérsias doutrinárias causadoras de divisão. Ainda outros depreciam a doutrina e insistem que a santidade consiste em ouvir Deus como ele nos fala através da igreja, dos amigos e de nosso coração. A estas pessoas, e aos cristãos enganados por elas, um livro inteiro sobre a Trindade deve ser um enigma. Por que alguém leria um livro como esse, sem falar em escrevê-lo? Alimentar os famintos e abrigar os sem-teto não são coisas mais importantes que entender a diferença entre homoousios e homoiousios? Quem afinal liga, pouco que seja, para sabelianismo e arianismo? Esquadrinhar o próprio coração não é mais importante que esquadrinhar um tratado sobre a Trindade? Infelizmente para essas pessoas, elas estão enganadas, e erros como esse podem lhes custar suas almas. Cristianismo não é ação nem introspecção: é verdade. Cristianismo é doutrina, ensino, teoria, verdade; não é prática, ação ou alvoroço. Sem dúvida certo tipo de comportamento é resultado do cristianismo, mas o comportamento em si não é cristianismo. Confundir as duas coisas é cometer um erro tão sério quanto confundir justificação e santificação, fé e obras. Qualquer um confuso sobre esses pontos corre risco de inferno. Todavia é muito popular hoje em dia em alguns círculos alegadamente cristãos se enfatizar a ação e ignorar a doutrina, como se a ação fosse a coisa importante. Esse ponto de vista é estranho às Escrituras, que ensinam justificação por meio da fé somente e santificação por meio da verdade. O apóstolo Pedro, para citar apenas um exemplo, diz-nos que todas as coisas que pertencem à vida e à piedade vêm por meio do conhecimento de teologia. Todas as coisas. Mas a ênfase de Cristo, de Paulo, de João e de Pedro ― isto é, a ênfase de Deus ― no conhecimento encontra-se totalmente ausente na igreja cristã professante. Sentir e fazer, e não conhecer, têm primeiro lugar na vida da maioria das igrejas e cristãos. Por vezes não cristãos, e até mesmo anticristãos, entendem o cristianismo melhor do que cristãos, ou pelo menos melhor do que aqueles que se pretendem cristãos, mas não o são. Um desses anticristãos que entendia muito bem a importância da doutrina de Deus viveu cem anos atrás. Ele escreveu: Quando se abandona a fé cristã, subtrai-se de si mesmo também o direito à moral cristã. Esta não é absolutamente algo evidente em si: precisamos sempre enfatizar esse ponto, apesar dos cabeças-ocas ingleses. O cristianismo é um sistema, uma visão elaborada e total das coisas. Se arrancamos dele um conceito central, a fé em Deus, despedaçamos também o todo: já não temos nada de necessário nas mãos. O autor dessas palavras é Friedrich Nietzsche, que odiava Cristo e tudo o que ele representava. Mas Nietzsche pelo menos entendia o que Cristo representava. É impossível dizer isso acerca de muitos cristãos hoje. Esperamos que este livro seja usado por Deus para preservar e proteger a sua verdade contra seus inimigos e pretensos amigos. John Robbins

Sabelianismo


A falha judaica em ver mais que uma Pessoa como Deus adentrou as igrejas cristãs – com esta tão importante diferença: Eles tinham algo a dizer sobre Cristo. As visões possíveis sãos essas: há três deuses independentes; há apenas um Deus que aparece e opera em três modos; há apenas uma Pessoa que é Deus e Cristo foi sua primeira criação; e finalmente há uma Divindade existindo em três Pessoas. Este tratado gastará algumas páginas sobre o Sabelianismo e então expandirá sobre o conflito entre arianos e atanasianos. Até o ponto que Sabélio está pessoalmente envolvido, o único fato que precisa ser mencionado é que ele foi condenado em 263 d.C.. Sua teologia, portanto, não deve ser ignorada, apesar dos ecos de suas visões terem esporadicamente soado aqui e ali através dos últimos séculos. Sabelianismo é a visão de que Deus é uma única pessoa; não há uma segunda pessoa chamada Filho, nem uma terceira chamada o Espírito. Antes, quando Deus é ativo na criação do universo e o controlando, ele deve ser chamado Pai; quando ele está ativo na redenção, ele deve ser chamado Filho; e quando ativo na santificação ele é chamado Espírito. Os três nomes significam três atividades diferentes da mesma Pessoa. Certamente os sabelianos poderiam reconhecer Cristo como Deus, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, e isso soa muito bom para o público cristão; mas Filho foi apenas um nome para um dos três tipos de atividades de Deus. Sabelianismo, mesmo que uma justiça superficial seja feita ao Novo Testamento – e isso foi uma preocupação maior no século II do que no século XX – implica ou no mínimo coincide com o que foi chamado Patripassianismo, ou seja, que foi o Pai quem sofreu na cruz. Está não é realmente a dedução lógica do sabelianismo, porque os sabelianos diriam que Deus sofrendo na cruz é apropriadamente chamado Filho, e não Pai; e um historiador pode desejar manter certos grupos distintos; mas um não pode ficar surpreso com a confusão do terceiro século. Tertuliano causticamente comentou que essas pessoas “põem o Paracleto em fuga e crucificam o Pai.” Em resposta a tais visões, uma das evidências do Novo Testamento a ser citada que Deus não é uma Pessoa vem da fórmula batismal de Mateus 28:19, “Batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.” Romanos 6:3 e Gálatas 3:27 usam Cristo apenas e não mencionam o Pai nem o Espírito. A últimas das duas referências não harmoniza com o sabelianismo, porque, ao contrário, é sem sentido batizar em uma função de uma pessoa de três funções. Quanto à fórmula trinitariana alguém pode perguntar, se o Pai é simplesmente uma função, como o Filho e o Espírito são funções, essas são funções de quê? Quanto à interpretação sabeliana, há no verso nenhuma menção de qualquer Pessoa divina. Um batismo sabeliano requereria algo como “eu te batizo em nome da criação, redenção e glorificação.” Obviamente esta não é a fórmula cristã, e esta de modo algum pode se ajustar ao sabelianismo. Deve-se notar que no Novo Testamento o termo Pai nas passagens pertinentes não expressa uma relação com o homem. O Pai é o Pai do Filho. Mas atividades, como criação e redenção, não pode ser do pai e do filho. Em outras palavras, a fórmula tripla não salienta sobre o que Deus faz; ela salienta o próprio Deus como triplo. Em adição à fórmula batismal há a Bênção Apostólica: “A graça do nosso Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo esteja com todos vocês. Amém.” A ordem dos nomes aqui é peculiar. Sabelianismo requereria Deus ser mencionado primeiro, e então, estranhamente eles encontrariam apenas duas das três atividades na fórmula. Mesmo um trinitariano é surpreendido por o Pai não ser mencionado primeiro. De fato, o Pai de modo algum é mencionado. O trinitarianismo pode permitir um identificação de Deus com Pai e assim separar de Deus o Filho e o Espírito? Hodge estranhamente nem mesmo menciona a dificuldade em seu Commentary on II Corinthians [Comentário sobre II Coríntios]. Alguém pode, portanto, entender que à medida que o cristianismo começou a aparecer distinto do judaísmo contínuo, e contudo não totalmente emerge da fraseologia do Antigo Testamento, que o termo Deus deve ser mantido como uma designação do Pai, no lugar de aplicá-lo uniformemente ao Filho e ao Espírito. Veja, por exemplo, Gálatas 1:1, 3; Efésios 3:14; et al., onde Paulo usa a frase: “Deus o Pai.” De fato, isso é de algum modo a razão que forçou Atanásio, no próximo século, a insistir na Deidade de Cristo. Somando-se a essas duas fórmulas, o Novo Testamento contém muitas indicações maiores ou usualmente menores de que há três Pessoas, não apenas três atividades. Uma das passagens mais longas é a Oração Sacerdotal em João 17. Uma função não pode orar a uma função. Além do que, a passagem em muitos lugares distingue o Filho do Pai. Tome por exemplo o versículo 5: “E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse.” Distinções pessoais dificilmente poderiam ser mais claramente postas. Ou abaixo no versículo 18: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo.” Mas funções não mandam funções. Deve-se notar, e isso será mencionado posteriormente na seção sobre Agostinho, que os termos Pai, Filho e Espírito não expressam três relacionamentos para com os seres humanos criados. O Filho é o Filho do Pai. O Pai e o Filho enviam o Espírito Santo. Ele era o Espírito antes de ele ser enviado. Mesmo quando Cristo diz, “Eu e meu Pai somos um,” nós não apenas temos a distinção entre “eu” e o “Pai”, mas também o um é um neutro e não um masculino. O Pai e o Filho endereçam um ao outro como “Eu” e “Tu.” O Filho ora ao Pai. Essas distinções, que dificilmente podem ser negadas como sendo distinções pessoais, são conclusivas contra o Sabelianismo. Um pequena lista de versículo pertinentes é Mateus 3:17; 11:27; 26:53; Lucas 2:49; João 2:16; 5:22, 23: 8:54; 14:2, 13, 16, 21, 24, 26; I Coríntios 12:3; e Hebreus 1:5. Sabelianismo agora está extinto. Teólogos recentes que categorizam este ou aquele herético como sabeliano, talvez Serveto, estão incorretos. Shedd (History of Christian Doctrine [História da Doutrina Cristã], 377) acusa Scotus Eriugena de sabelianismo e acrescenta que outros teólogos fazem a mesma acusação contra Abelardo. Caroli acusou Calvino de sabelianismo! Strong (I, 327, 328, notas) cuidadosamente e confusamente duas vezes faz referência a Horace Bushnell. A razão do sabelianismo está extinto é que desde o quarto século os descrentes tem regularmente admitido que Cristo era uma pessoa. Ele negam que ele era uma Pessoa divina. Nem eles agora tentam muito defender suas visões em bases bíblicas, porque eles repudiaram inerrância. Portanto, os unitarianos do século dezenove e os grupos apóstatas do século vinte não são sabelianos. Tanto em história – porque Atanásio deu pouca atenção a Sabélio – como em lógica, o próximo passo é mostrar que Jesus, a pessoa que andou pela Palestina, era Deus encarnado. Nós chegamos, portanto, no desenvolvimento da doutrina da Trindade à defesa da Deidade de Cristo, e disto Atanásio ocupou-se no Concílio de Niceia. Fonte: CLARK, Gordon H. The Trinity. 2. ed. Jefferson, Maryland (E.U.A.): Trinity Foundation, 1990. p 8-12. Tradução: Jazanias Oliveira

A necessidade da Trindade


As implicações da doutrina da Trindade oferecem a cura para o socialismo (coletivismo) e para o individualismo (libertarianismo). Socialismo, Marxismo e todas as formas de coletivismo, elevam a importância do grupo, da sociedade, e do estado em detrimento do indivíduo e dos seus direitos e liberdades, e assim estabelecem a base para a existência de um governo absoluto e soberano do estado, que não contempla o indivíduo e destrói a criatividade, a liberdade e vida humana. Nessa visão, o cidadão como indivíduo é sacrificado quando necessário para o bem do estado, ou quando é do interesse do estado. Stalin, Mao, e sua corja, mataram milhões de seus próprios cidadãos para o bem geral do estado. Os Estados Unidos matam através do aborto milhões de bebês não nascidos para o bem estar maior da sociedade. O individualismo democrático, também chamado de libertarianismo, é o oposto do socialismo. Enquanto todas as formas de socialismo acreditam na soberania do estado, o libertarianismo acredita na soberania e na autonomia do indivíduo. Assim exalta o indivíduo em detrimento do grupo. As atividades legítimas do estado e a validade de leis universais são negadas. Nessa visão, por exemplo, o casamento como uma instituição é descartada e os desejos dos indivíduos reinam supremos. Leis proibindo o aborto ou o comportamento homossexual são vistas como restrições ilegítimas sobre a autonomia individual. Uma perspectiva cristã trinitariana da vida e da sociedade permanece sobre e contra essas visões, porque não acredita nem na soberania do estado nem na soberania do indivíduo, mas na soberania do Deus trino. Não exalta o grupo em detrimento do indivíduo, nem o indivíduo em detrimento do grupo. A ênfase da Bíblia é sobre o indivíduo dentro de um contexto de família trabalhando pela igreja discipulando as nações do mundo (Mt. 28:19-20). A Bíblia reconhece a importância equivalente do indivíduo particular e da sociedade humana em geral. Nenhum dos dois é soberano. Apenas Deus é soberano, e todos os indivíduos e sociedades estão subordinados a Ele para viverem em termos da Sua ordem e plano de vida revelados. A Palavra de Deus é um manual autoritativo e suficiente de direções para indivíduos e grupos, sobre moralidade privada e justiça pública. Fonte: Joseph C. Morecraft, III, Authentic Christianity (Powder Springs, Georgia: American Vision Press, 2009) p. 388-389, Volume 1 Tradução: Isaac Barcellos

Como a Trindade trabalha em conjunto na Salvação


Uma das percepções mais importantes da teologia Reformada é a unidade das obras da Trindade. Calvinistas creem que Deus o Pai, Deus o Filho e Deus o Espírito Santo estão unidos na obra de redimir a humanidade perdida. Não cremos que eles ajam um contra o outro, ou mesmo um sobre o outro, mas um com o outro em nossa salvação. Por exemplo, Jesus não morreu para convencer o Pai a mudar sua atitude para conosco, de inimizade a amor. Antes, Jesus morreu na cruz por causa do amor do Pai por nós, como João 3.16: diz: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. O Pai e o Filho estão unidos em sua obra pela salvação daqueles que creem: o Pai elegendo e enviando o seu Filho; o Filho expiando pelos pecados daqueles escolhidos e dados a ele pelo Pai (João 6.37-40). A mesma harmonia existe entre o Filho e o Espírito. Jesus não morreu pelos pecados de todas as pessoas, ao passo que o Espírito Santo aplica os benefícios de sua obra meramente a alguns. Antes, o Espírito Santo regenera precisamente as pessoas por quem Jesus ofereceu sua obra expiatória, de forma que a obra da segunda e terceira pessoas da Trindade se harmoniza perfeitamente. Essa ênfase sobre a unidade da Trindade na salvação pode ser vista nas doutrinas da graça, na forma como estão organizadas pelo acróstico TULIP. As doutrinas da graça começam com um problema: T— a depravação total do homem. A resposta a esse problema é suscitada pela obra unificada da Trindade. Ela começa com a eleição incondicional, que é focada no propósito soberano do Pai na predestinação. A salvação é então realizada pela obra expiatória de Jesus sobre a cruz, a qual, de acordo com a expiação limitada, foi oferecida por aqueles eleitos pelo Pai. Essa salvação é então soberanamente aplicada àqueles mesmos indivíduos eleitos pela obra regeneradora do Espírito Santo, que é o ponto da graça irresistível. Portanto, assim como a eleição incondicional descreve a graça do Pai e a expiação limitada descreve a graça do Filho, a graça irresistível apresenta a graça do Espírito Santo. Embora reconhecendo que onde um membro da Trindade age, todos estão envolvidos, podemos identificar a graça irresistível como a própria doutrina da graça do Espírito Santo. Fonte: What’s So Great about the Doctrines of Grace?, por Richard Phillips. Tradução: Felipe Sabino

Amém


28 de março - Devocional Diário CHARLES SPURGEON #88

domingo, 27 de março de 2016

A Importância da Ressurreição de Cristo


A IMPORTÂNCIA DA RESSURREIÇÃO DE CRISTO=========================================#jesusressuscitou

Publicado por Pr. João Alexandre em Domingo, 27 de março de 2016

O Sacrifício de Jesus


O SACRIFÍCIO DE JESUS - Filipenses 2:5-11.=====================

Publicado por Pr. João Alexandre em Sexta, 25 de março de 2016

quarta-feira, 16 de março de 2016

A ressurreição de Jesus

terça-feira, 15 de março de 2016

PORQUE BATIZO POR ASPERSÃO (FINAL) Joelson Gomes


PORQUE BATIZO POR ASPERSÃO (FINAL) Joelson Gomes I- Rm. 6: 4-6, não fala que o batismo é por imersão? a. Não. Aliás, ali não nem do batismo com água, mas do Batismo com o Espírito Santo, como regeneração do pecador convertido. Se nós quiséssemos que a palavra “sepultados” no texto significasse imergido, teríamos que provar que a sepultura naquele época e local era colocar alguém em baixo da terra, e não era. Benjamin Scott informa que: “No período referido (período áureo de Roma) era costume entre os romanos cristãos queimar seus mortos e conservar somente as cinzas em urnas”.[1] Quando não os incineravam, eles sepultavam, mas não em buracos no chão; eles usavam cavernas para isso. Estas cavernas continham escavações em suas paredes para colocar os mortos. Fazendo uma descrição minuciosa de como os crentes de Roma usavam este método, Scott diz que... ... galerias escavadas, que eram usadas como esconderijo ou sepulturas exclusivamente por cristãos, como se depreende das inscrições e do fato de serem os mortos enterrados ali, inteiros, separadamente, em loculi ou sepulturas cavadas, e não reduzidas a cinzas amontoados em buracos ou poços, como eram os pagãos... As galerias muitas vezes têm dois ou três metros de altura e, de um a dois de largura, porém algumas vezes são menos espaçosas. Ao redor de nós, fileira sobre fileira, em sucessão sem fim, se observam túmulos... .[2] b. Não só os romanos, mas os judeus também sepultavam assim (Jo.11: 38-40; Mt. 27:57-61).[3] Portanto, os romanos, e judeus, que receberam a declaração de Paulo, não entenderam a imagem feita pelo apóstolo, comparando o batismo a morrer e sepultar, como se isso necessariamente implicasse em colocar alguém debaixo da terra, e assim sendo, que para o batismo deveriam imergir alguém em um rio ou tanque. Os movimentos de “descer e subir” não estão implicados nas frases: “Fomos, pois, sepultados” e “o seremos na semelhança da sua ressurreição”, como querem alguns[4] para simbolizar o batismo por imersão. O crente é “sepultado com Cristo na morte” não no momento do batismo com água, mas no momento de sua regeneração, por isso este texto fala de regeneração espiritual. Note que Paulo também diz que quem foi batizado com o tipo de batismo que ele fala em Rm. 6. foi plantado com Cristo e foi crucificado com Cristo. Ora como representa isso na forma de batismo? Se, ser sepultado com Cristo é ser imerso, ser crucificado é ser o que? Como representar? Assim, o que o apóstolo fala aqui não tem nada que ver como o batismo com água, mas sim, com a regeneração, pois é ai que o ser humano é crucificado com Cristo (Gl. 6:14), morre o velho para nascer o novo. II- Jesus não entrou na água (Mt. 3: 16; Mc. 1: 9-10)? a. Claro que sim, mas não diz os textos que ele foi imerso. Entrar na água se entra para ficar com água nos tornozelos, pela cintura, pelo pescoço, etc., mas não é obrigado se imergir. Valendo salientar que todas as imagens que se tem até hoje, as mais antigas sobre o batismo de Jesus, é sempre de um homem com água pelos tornozelos ou pela cintura, e um outro derramando água sobre sua cabeça. III- E Filipe e o Eunuco? a. Concluir que o uso das expressões “descer a água” e “subir da água”, (At. 8: 38-39) implica necessariamente em imersão é ter um pouco de pressa. Berkhof mostra que esta conclusão não é obrigatória por que: Um estudo cuidadoso do uso que Lucas faz da preposição eis demonstra que ele a usou não só no sentido de para dentro, mas também no sentido de para, de maneira que é inteiramente possível ler a importante afirmação do versículo 38, da seguinte maneira: “E os dois desceram para a água, tanto Filipe como o eunuco, e ali Filipe o batizou”.[5] Eles podem ter chegado à beira da água sim, mas nem sequer entrado nela. Portanto, por estas palavras não se estabelecem a imersão. E até concedendo-se que tivessem entrado na água, também não quer dizer que houve imersão por esse fato. Pois é sabido que nem todas as vezes que alguém entra em água necessariamente se imerge. Além do mais, se se interpreta estas expressões ao pé da letra, isto implicaria que os dois desceram e se imergiram, pois o autor usa sempre o plural e não faz distinção. “A propósito, as palavras “desceram à água... não afirmam nada sobre sua extensão ou profundidade”. Pode estar implícito uma imersão total, mas, nesse caso, o batizador e o batizando seriam submersos juntos, pois a afirmação se refere aos dois”.[6] Sendo assim, pelo exposto até aqui, o vocabulário do texto de forma nenhuma apóia a imersão como forma batismal para o eunuco. Não se decide o fato tentando forçar argumentos lingüísticos, deve-se levar em conta na interpretação da passagem que, sendo Filipe um judeu, conhecedor das tradições do seu povo, do uso que faziam da água para as purificações por aspersão, é improvável que tenha mudado a forma das purificações que a sua tradição baseada na Lei prescrevia. IV- E a História o que diz? Bem, na é possível estabelecer a imersão como forma do batismo baseado na história. Isto por que não existem evidências concretas preservadas. No que diz respeito ao rito do batismo praticado na Igreja Primitiva, a julgar pelos batistérios ocidentais e pela iconografia, o batizando entrava na água até a cintura. Recebia um jato de água ou mesmo o ministro do batismo derramava água sobre ele. Às vezes aparece um personagem impondo as mãos sobre a cabeça do batizando. [7] John Stott escreve sobre o fato: Estamos longe de saber ao certo se os primitivos batismos eram feitos por imersão total; alguns quadros primitivos do batismo de Jesus, por exemplo, o retrata de pé dentro do rio, com água pela cintura, enquanto João Batista derrama água sobre sua cabeça. [8] Assim, quem quiser usar a história para apoiar a forma imersionista de batismo, está usando dados incompletos, pois a mesma não esclarece este fato com precisão. “Não temos possibilidade alguma de reconhecer uma liturgia batismal do século I, pois falta-nos uma idéia precisa de como o batismo era administrado nas igrejas primitivas”. [9] NOTAS [1] As Catacumbas de Roma, 11ª ed. (Rio de Janeiro: CPAD, 1994), p. 72 (Parêntesis meus). [2] Ibid, pp. 72-73 (Grifos meus). [3] “O enterro tinha lugar numa caverna natural ou artificial (sepulcro) (Gn 49.29-32; Jz 8.32). As cavernas naturais eram alargadas e providas de nichos ou prateleiras, onde os corpos podiam ser colocados para descansar”. GOWER, Ralph. Usos e Costumes dos Tempos Bíblicos (Rio de Janeiro: CPAD, 2002), p. 72. [4] “Imersão em água não representa adequadamente o sepultamento e a ressurreição de Jesus... no seu sepultamento, o corpo de Jesus não foi colocado por baixo da terra, mas antes lateralmente, em uma sepultura aberta em uma rocha, a qual tinha uma entrada que podia ser tapada com uma pedra (Mt. 27:60). Não cobriram o corpo com terra”. LANDES, Philippe. Estudos Bíblicos Sobre o Batismo; o Modo de Administrá-lo 2ª ed. (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1964), p. 39 (Grifo dele). [5] Teologia Sistematica, p. 753 (Tradução minha). Para significados da partícula είς veja: RUSCONI, Carlo. Dicionário do Grego do Novo Testamento, pp. 150-151. [6] STOTT, John. A Mensagem de Atos (São Paulo: ABU, 1994), p. 180 (Grifo meu). [7] Vd. BERADINO, Ângelo Di (org). Dicionário de Antiguidades Cristãs (Petrópolis: Vozes, 2002), pp. 218-219. [8] STOTT, John. Romanos (São Paulo: ABU, 2000), p. 207. [9] DRANE, John. A Vida da Igreja Primitiva (São Paulo: Paulinas, 185), p. 129.

POR QUE BATIZO POR ASPERSÃO (VI) Joelson Gomes


POR QUE BATIZO POR ASPERSÃO (VI) Joelson Gomes O SIGNIFICADO DA PALAVRA BATISMO Muitos dizem que o significado da palavra batismo é imergir, e se ela significa imergir então batizar é mergulhar. Será que é assim? Observe uma análise de algumas palavras pertinentes ao caso: a) As autoridades no idioma grego dão como definição para estas palavras um significado variado. Por exemplo: 1- O famoso A Greek-English Lexicon the New Testament and Other Early Christian Literature, traz o seguintes significados: – 1.βαπτιζω (baptizô): mergulhar, imergir. Mergulhar a si mesmo, lavar, ensopar. 2. O ritual de lavagens dos judeus (Mc. 7:4; Lc. 11:38); 2.βαπτισμός (baptismós) - mergulho, lavagem de pratos (Mc. 7:4, 8). Ritual de lavagens (Hb. 9:10).[1] 2- O grande dicionarista Joseph Thayer observa sobre os termos: 1.βαπτιζω (baptizô) - mergulhar repetidamente, imergir, submergir, lavar inteiramente com água; 2.βαπτισμός (baptismós) - uma lavagem, purificação efetuada com água (Mc. 7:4,8), lavagens prescritas na lei mosaica (Hb. 9:10).[2] 3- Carlo Rusconi apresenta as seguintes definições para os termos: 1.βαπτιζω (baptizô) – lavar, imergir, fazer abluções; 2.βαπτισμός (baptismós) - ato de lavar, banho, ablução; 3.βαπτω (baptô) – imergir, embeber, tingir (Ap. 19:13). [3] 4- Elsa Tamez L. e Irene W. de Foukes definem– 1.βαπτω (baptô): molhar, empapar. 2.Βαπτιζω (baptizô) – batizar, lavar-se em forma ritual. 3.Βαπτισμός (baptismós) – cerimônia de purificação, batismo, ablução, lavamento. [4] b) Deve-se notar também que a palavra βαπτίζω (baptízô) quando unida a água nos evangelhos sempre se refere a lavagem para um propósito religioso, seja ao batismo cristão, ou as cerimônias judaicas, mas não está estritamente implicada a imersão. A transição do idioma grego, do Antigo para o Novo Testamento, traz algumas mudanças em palavras, e βαπτω (baptô) e βαπτίζω (baptízô) estão entre estas palavras que mudam. “Juntamente com bápto, “imergir”, o uso do verbo baptizo é alargado: ele perde o significado clássico de “imergir, submergir” e transforma-se em um termo técnico para indicar a administração do batismo (báptisma e baptismós)”.[5] Existem várias passagens para provar isso. a) Mc. 7: 3-4: Os fariseus e todos os judeus não comem sem lavar as mãos cerimonialmente (νίψωνται), apegando-se, assim, à tradição dos líderes religiosos. Quando chegam da rua, não comem sem antes se lavarem (βαπτίσωνται). E observam muitas outras tradições, tais como o lavar (βαπτισμούς) de copos, jarros e vasilhas de metal) (NVI). A atenção a este texto é essencial, aqui. Marcos está se referindo a cerimônia judaica de sempre lavar as mãos antes das refeições. No verso 3 ele usa o verbo νίπτω (niptô = lavar, lavar uma parte do corpo, cf. Mt 6:17) (νίψωνται = nipsôntai),[6] mas no verso 4, continuando a falar da mesma cerimônia de lavagem das mãos, ele usa o verbo βαπτίζω (baptízô) (βαπτίσωνται = baptísôntai), e o substantivo βαπτίσμός (baptísmós) (βαπτισμούς = baptismoús). Assim, o uso que Marcos faz destas palavras indiscriminadamente, mostra que as mesmas podiam ser usadas como sinônimas na sua época, para descrever a mesma cerimônia de lavagem das mãos.[7] Para Marcos batizar é a mesma coisa que lavar, não apenas imergir, pois estas cerimônias de lavagens das mãos não eram feitas mergulhando as mesmas na água. Comentando Mt. 15:2, onde aparece uma referência a mesma prática e é usada a palavra grega νίπτω (niptô), Fritz Rienecker observa: Havia minuciosas e meticulosas prescrições que diziam como devia acontecer a lavagem das mãos. Duas vezes tinha de ser derramada água sobre as mãos até os pulsos e partir de um recipiente qualquer (...). Para cada ablução estava prescrito um pouco mais de um decilitro de água (...). Além disso havia uma série de prescrições sobre a forma da vasilha, sobre a maneira de derramar a água, sobre quantas pessoas podiam ser lavadas simultaneamente, quem era indicado para derramar a água de forma válida, etc., etc (Grifos meus).[8] Exemplos assim deixam claro que os evangelhos não empregam a palavra βαπτίζω (baptízô) apenas com o sentido de imergir. b) Lucas, ao escrever sobre esta cerimônia de lavagem das mãos descrita acima, usa também a mesma palavra. Mas o fariseu, notando que Jesus não se lavara cerimonialmente (έβαπτσθη ) [9]antes da refeição, ficou surpreso (11:38 NVI). Estas cerimônias de lavagem das mãos eram feitas com alguém derramando água sobre as mãos de outro (cf. 2Rs. 3:11), e não imergindo as mesmas em qualquer recipiente como já visto. c) Atos dos Apóstolos. O livro de Atos também faz um emprego da palavra βαπτιζω esclarecedor. Pois João batizou (έβάπτισεν) com água, mas dentro de poucos dias vocês serão batizados com o Espírito Santo (At.1:5). A comparação de Jesus é clara. Ele esclarece que como João batizou com água, os discípulos iam ser batizados com o Espírito Santo. Acontece que quando Pedro vai explicar este batismo prometido por Jesus e cumprido no Pentecostes (At. 2: 1-4), ele não diz que os discípulos foram imersos no Espírito Santo, mas que o Espírito foi derramado (έξέχεεν = éxécheen) sobre eles [10], At.2:33; cf.2:17. Vd. Ez. 36:25; Jl. 2:28-29; Lc. 24:49). O batismo, portanto, foi um derramamento. Assim, derramar é claramente empregado como sinônimo de batizar. d). A Carta aos Hebreus. Neste texto existem algumas passagens que convêm prestar atenção. Portanto, deixemos os ensinos elementares a respeito de Cristo e avancemos para a maturidade, sem lançar novamente o fundamento do arrependimento de atos que conduzem à morte, da fé em Deus, da instrução a respeito de batismos (βαπτίσμών = baptísmôn) da imposição de mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno (Hb. 6:2. NVI). O autor aqui usa a palavra batismo no plural, é lógico, portanto, que ele não trata do batismo cristão, pois os cristãos não praticavam muitos batismos, só um. Ele trata então das purificações judaicas do Antigo Testamento (Lv. 10: 8-11. 11; 12-15; 14:7; 15: 5; 16: 24-28; Nm. 19: 17-22).[11]E estas purificações judaicas como já foi visto na parte III, não eram feitas por imersão, mas por aspersão. O contexto da Carta aos Hebreus apóia esta interpretação. Observe-se o uso que o autor faz da mesma palavra batismo em Hb. 9:10. Eram apenas prescrições que tratavam de comida e bebida e de várias cerimônias de purificação com água (βαπτισμοίς = baptismoís); essas ordenanças exteriores foram impostas até o tempo da nova ordem (NVI). O autor novamente fala de “batismos” (plural), e diz que estes batismos existiam até o tempo da Nova Aliança. Comentando este texto Hodge esclarece que tipos de batismos são esses: Pelo contexto imediato fica claro que eram batismos com “o sangue dos touros e bodes e as cinzas de uma novilha espargidas sobre os imundos” (Hb. 9:13). O apóstolo contrasta o culto dos Tabernáculos com a dispensação cristã. No Primeiro, havia regulamentos com respeito a comidas e bebidas, e diversos batismos e ordenanças acerca da carne. O sangue dos diferentes animais, ou as cinzas de uma novilha, aspergidos sobre os imundos, santificavam quanto a purificação da carne. Na segunda, isto é, na dispensação cristã, é o sangue de Cristo que é eficaz. No primeiro, “Moisés,... tomou o sangue dos bezerros e dos bodes, com água, lã escarlate e hissopo, e aspergiu o próprio livro e também todo o povo... E, além disso, aspergiu também com sangue o Tabernáculo e todos os vasos do ministério” (Hb. 9:19-21). Sem discussões, estes são os “diversos batismos” a que se refere o v. 10 deste capítulo.[12] e) Algo que ainda deve ser notado é o jogo de palavras do texto. Ao falar das purificações da Lei, no verso 10, o autor usa a palavra βαπτισμοίς (baptismoís), mas falando destas mesmas purificações nos versos 13, 19 e 21, explicando-as, o autor usa o verbo ραντίζω (rantizô = aspergir), porque as purificações eram feitas desta forma. Isto torna visível que o autor de Hebreus usava as duas palavras batismo e aspersão como sinônimas. f) O Apocalipse. Encontra-se anda o verbo βαπτω (baptô) empregado em Ap. 19:13. Está vestido com um manto tingido de sangue, e o seu nome é Palavra de Deus. É impossível ao ler este texto e não se lembrar de Is. 63:3, onde é retratado o estado das vestes daquele que pisa o lagar: Sozinho pisei uvas no lagar; das nações ninguém esteve comigo.Eu as pisoteei na minha ira e as pisei na minha indignação; o sangue delas respingou na minha roupa, e eu manchei toda a minha veste (NVI). As vestes de quem pisa as uvas no lagar não ficam sujas por imersão, elas ficam salpicadas, tingidas, respingadas. Por isso βαπτω (baptô) é muito bem traduzido neste texto por: salpicar, tingir, respingar. Portanto, o grego do Antigo e do Novo Testamento não fornece autoridade para se usar baptô, baptizô ou baptismós com o sentido único de imersão. As palavras não podem assumir um significado à margem de seu contexto e de sua análise lingüística. Quando se olha mais detalhadamente estas palavras é claro que são sinônimas rantizô= aspergir, e o uso das mesmas palavras com o significado de aspersão está no grego tanto do Antigo (LXX) como do Novo Testamento. Continua... NOTAS [1] ARNDT, William F. and GINGRICH, F. Wilbur. A Greek-English Léxicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (Chicago: The University of Chicago Press, 1952), pp. 131-132. [2] A Greek-English Lexicon of the New Testament (Chicago: American Book Company, s/d.), pp. 94-95. [3] Dicionário do Grego do Novo Testamento (São Paulo: Paulus, 2003), p. 93. [4] Diccionario Conciso Griego – Español del Nuevo Testamento (Stuttgart: SBU, 1978), p. 32. [5] Vademecum para o Estudo da Bíblia 2ª ed. (São Paulo: Paulinas, 2005), p. 165. Para o assunto das mudanças do grego da LXX para o do Novo Testamento, Ibid. pp. 159-167. [6] Esta palavra é usada geralmente com significado de lavagem de uma parte do corpo, no presente caso, as mãos. BRATCHER, Robert G.; NIDA, Eugene A. A Translator’s Handbook on the Gospel of Mark (London: United Bible Societies, 1961), p. 220. [7] “A palavra Baptsontai é provavelmente explicada como denotando a mais completa forma do ritual de lavagem, aspersão com grande quantidade de água da bacia, que era necessária para a contaminação pelo contato com a praça do mercado”. CRANFIELD, C. E. B. The Gospel According to Saint Mark (Cambridge: Cambridge University Press, 1959), p. 234 (Tradução minha). Vd. também, TAYLOR, Vicent. The Gospel According to St. Mark (London: Mcmillan, 1969), p. 236. [8] Evangelho de Mateus (Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 1998), pp. 262-263. [9] “Έβαπτ…] Este uso da palavra mostra que esta não implica necessariamente em imersão de todo o corpo, mas refere-se às mãos que os Fariseus lavavam antes das refeições”. Vd. ALFORD, Henry. Alford’s Greek New Testament. An Exegetical and Critical Commentary (Grand Rapids: Guardian Press, 1976), p. 557. [10] Έξέχεεν é a terceira pessoa, aoristo segundo, indicativo ativo de έκχέω, verbo variante de εκχυνω, que sugnifica: derramar, aspergir. Vd. RUSCONI, Carlo. Dicionário do Grego do Novo Testamento, pp. 160-161. [11] FABRIS, Rinaldo. As Cartas de Paulo (III) (São Paulo: Loyola, 1992), p. 447. [12] O Batismo Cristão. Imersão ou Aspersão? p. 23.

POR QUE BATIZO POR ASPERSÃO (V) Joelson Gomes


POR QUE BATIZO POR ASPERSÃO (V) Joelson Gomes COMO O NOVO TESTAMENTO ENTENDE A PURIFICAÇÃO. a) Deve-se notar o fato de que no Novo Testamento as pessoas continuaram tendo o mesmo entendimento de que a purificação deveria ser sempre praticada por uma aspersão, pois quando fala da purificação espiritual feita nos cristãos pelo sangue de Jesus Cristo, Pedro descreve como sendo uma aspersão (ραντισμόν= rantismón): Eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão (ραντισμόν= rantismón ) do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas (1Pd. 1:2). Também quando o autor de Hebreus quer falar da purificação do coração dos salvos, ele diz que eles foram aspergidos (ρεραντισμένοι =rerantisménoi): Sendo assim, aproximemo-nos de Deus com um coração sincero e com plena convicção de fé, tendo os corações aspergidos (ρεραντισμένοι= rerantisménoi) para nos purificar de uma consciência culpada, e tendo os nossos corpos lavados com água pura (Hb. 10:22, NVI). Sobre este versículo Donald Guthrie observa: “Sem dúvida a metáfora da aspersão (aqui purificação) é derivada do culto ritual levítico, onde é mencionado o sangue aspergido sobre o povo como ratificação da antiga aliança (Êx. 24:8). b) Assim, no Novo Testamento a cerimônia do batismo é entendida como um ato de purificação. Esta cerimônia não é do tipo em que as pessoas purificavam-se a si mesmas, mas o outro tipo, ou seja, pessoas não se batizam, elas são batizadas. Sendo no Antigo Testamento este tipo de cerimônia praticado por aspersão, no Novo Testamento seria de admirar se fosse mudado sem nenhuma explicação. c) O que se nota nos relatos bíblicos é que os judeus eram muito passivos, e iam em massa para serem batizados por João (Mt. 3:5-6; Mc. 1:5; Lc. 3:7), ou pelos cristãos (At. 2:37-41). Fica, portanto, evidente que isso não aconteceria se João houvesse trazido uma nova cerimônia, completamente desconhecida pelos seus contemporâneos, e se a igreja realizasse esta cerimônia de um modo diferente do que o povo já conhecia. d) Vale notar que até por uma questão prática a aspersão é preferida nesta compreensão para conseguir dar vencimento a todas as pessoas que iam a ele para serem batizadas: “Então Jerusalém, toda a Judéia e toda a região do Jordão iam ter com ele” (Mt. 3:5, TEB; Mc. 1:5; Lc. 3:7); pois havia demora da confissão de pecados: “E faziam-se batizar por ele no Jordão, confessando os pecados” (Mt. 3:6, TEB; Mc. 1:5), e ainda havia pregação de João (cf. Lc. 3:7-18). A aspersão é claramente o modo mais indicado para dar vencimento à intensa prática batismal de João. Continua... NOTAS ______________ 1) GUTHRIE, Donald. Hebreus. Introdução e Comentário (São Paulo: Vida Nova, 1991), p. 200

POR QUE BATIZO POR ASPERSÃO (IV) Joelson Gomes


POR QUE BATIZO POR ASPERSÃO (IV) Joelson Gomes IV- A FORMA DAS PURIFICAÇÕES COM ÁGUA DO ANTIGO TESTAMENTO. Tendo estabelecido que a origem do batismo de João se encontra nas purificações judaicas prescritas na Lei do Antigo Testamento, e que este batismo continuou sendo visto pelos crentes do Novo Testamento como sinal de purificação, cabe agora determinar como eram feitas estas purificações dos judeus. Isto é necessário para se chegar à forma precisa como João Batista administrava sua cerimônia. João imergia ou aspergia as pessoas? a) A água tinha uma importância vital no cotidiano dos judeus, e na Lei havia muitas purificações com água estabelecidas. Charles Hodge escreve sobre as pessoas que João batizava: “Neste aspecto, o batismo era conhecido e praticado desde há muito tempo... Provavelmente, quase todos se haviam batizado muitas vezes ou haviam visto muitos outros serem batizados e, portanto, não podiam sentir qualquer preocupação especial ao fato em si.” [1] E sobre a forma como eram administradas estas purificações judaicas, Hodge acrescenta que “não se pode dar sequer um só exemplo de que se exigisse do judeu a imersão em água, ou que fosse submerso em cumprimento a alguma cerimônia religiosa regular ou feita em qualquer ocasião”. [2] Ainda existe algo muito importante a ser levado em conta nestas cerimônias de purificação com água, feitas pelos judeus no Antigo Testamento é o seguinte: 1- Havia um tipo de purificação ritual com água em que a própria pessoa se purificava e nesses casos era prescrito um lavamento/banho ritual para o indivíduo. Por exemplo: Ø Aquele que se purifica lava suas vestes, raspa todos os cabelos, lava-se (רָהַץ= rahatz) na água e então está puro; em seguida dirige-se ao acampamento, mas permanece sete dias fora da sua tenda; no sétimo dia raspa todos os pêlos, cabeça, barba e as sobrancelhas; raspa todos os pêlos, lava suas vestes, lava (רָהַץ= rahatz ) seu corpo na água e então está puro (Lv. 14:8-9, TEB). Ø Quem tocar o corpo do homem afetado de corrimento deve lavar suas vestes, lavar- se ( רָהַץ= rahatz ) na água, e será impuro até a tarde. Se o homem atingido de corrimento cuspir sobre alguém que é puro, este deve lavar suas vestes, lavar-se (רָהַץ = rahatz) na água, e será impuro até a tarde (Lv. 15:7-8, TEB). Ø Quando um homem expeliu o sêmen, deve lavar (רָהַץ= rahatz ) o corpo inteiro na água e é impuro até a tarde; (Lv. 15:16, TEB). Em todas estas passagens citadas, e ainda em passagens tais como: Lv. 15:10, 11, 13, 18, 22, 27, é usado o verbo רָהַץ (rahatz) que é traduzido por lavar-se, e significa realmente: lavar o corpo humano, ou parte dele (Gn. 18:4; 43:31; Dt. 21:6), lavar alimentos (Ex. 29:17; Lv. 1:9). E às vezes é usado metaforicamente para significar: lavar as mãos em inocência, declarar a si mesmo inocente (Sl. 26:6; 73:13), mas em lugar algum a palavra tem implicações de imersão, ou significa imergir.[3] b) Mas, havia um segundo tipo de purificação que era quando a cerimônia era feita por alguém, sobre outra pessoa ou objetos, com o objetivo se purificá-lo, e para este tipo a forma é sempre aspersão (נָזָה = nazah)[4]. Por exemplo: b.1.) Havia aspersão feita com sangue (Êx. 24:8; 29:21; Lv. 16:14, 15, 19); b.2.) Havia aspersão feita com óleo (Lv. 8:10-11); b.3.) Havia aspersão feita com azeite (Lv. 14:27); b.4.) Havia aspersão feita com água (Nm. 8:5-7; 19:18-19, 21). Era com esse segundo tipo de cerimônia que se entendia nos tempos bíblicos o ato purificador de Deus sobre uma pessoa. Deus aspergia para purificar. Pois, quando se passa da Lei Mosaica para outras partes do Antigo Testamento, encontra-se o mesmo entendimento a respeito da cerimônia de purificação feita por alguém (no caso Deus) sobre a pessoa. Deus asperge e limpa. Nota-se assim que o ato da aspersão passou a ser o símbolo geral para a purificação no Antigo Testamento. Por exemplo: c- Nos Livros Proféticos encontram-se passagens que mostram que os profetas bíblicos, quando queriam falar da purificação feita por Deus, continuavam a entender que o modo dEle purificar era aspergindo, e não imergindo. ... de igual modo ele aspergirá (נָזָה =nazah) muitas nações, e reis calarão a boca por causa dele. Pois aquilo que não lhes foi dito verão, e o que não ouviram compreenderão (Is. 52:15, NVI). Aspergirei (זַרָק = [zarak]: espalhar, aspergir)[5] água sobre vocês e ficarão puros; eu os purificarei de todas as suas impurezas e de todos os seus ídolos (Ez. 36:25, NVI). d- Nos livros poéticos também temos exemplo de como o ato de purificação feito por Deus era entendido no seu tempo. Purifica-me com hissopo, e ficarei limpo; lava-me, e ficarei mais alvo que a neve (Sl. 51:7, grifo meu). Sobre este texto Dereck Kidner observa: Purifica-me com hissopo é como uma alusão à purificação do leproso, aspergido sete vezes com o sangue sacrificial no qual foi molhado um ramo de hissopo como borrifador (Lv. 14:6-7); ou pode se referir ao ritual para purificação daqueles que tiveram algum contato com um defunto (Nm. 19:16-19).[6] Portanto, a aspersão feita por alguém sobre outra pessoa ou objeto está firmemente estabelecida como termo geral para purificação em todas as partes do Antigo Testamento, onde a cerimônia é mencionada, enquanto que há um silêncio significativo acerca da imersão, seja em rio, lago, ou tanque, como ato purificador. Continua... NOTAS [1] O Batismo Cristão. Imersão ou Aspersão? pp. 14-15. [2] Ibid, p. 16. [3] Veja para o significado desta palavra, TREGELLES, Samuel Prideaux. Gesenius Hebrew and Chaldee Lexicon (Grand Rapids: Eerdmans, 1954), p. 766; e ROY, W.L. A Complete Hebrew and English Critical and Pronouncing Diccionary, 2ª ed., (New York: John F. Trow & CO., 1846), p. 633. [4] Para definição da palavra נָזָה =nazah vd. TREGELLES, Samuel Prideaux. p. 255; e ROY, W.L. p. 503. [5] Para a definição de זַרָק = zarak veja: ROY, W.L. p. 224.; TREGELLES, Samuel Prideaux. p. 255. [6] Salmos 1 - 72, Introdução e Comentário (São Paulo: Vida Nova, 2004), p. 213 (Grifos dele itálicos meus).

POR QUE BATIZO POR ASPERSÃO (III) Joelson Gomes


POR QUE BATIZO POR ASPERSÃO (III) Joelson Gomes III- Com A igreja do Novo Testamento entendia o significado do Batismo. Procura-se agora determinar como a Igreja do Novo Testamento entendia a cerimônia do batismo. Vamos consultar o Novo Testamento olhando alguns versículos detalhadamente: 1- a) At. 2:38: “Pedro respondeu: “Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo”. (NVI). As palavras de Pedro são claras, ele liga o recebimento do batismo com o perdão dos pecados. O batismo recebido pelos convertidos seria o sinal exterior da limpeza espiritual interior. Os Vinte e Oito artigos da Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo, síntese de fé do povo Congregacional brasileiro, tem muita razão quando diz no artigo 25: “O batismo com água foi ordenado por nosso Senhor Jesus Cristo como figura do batismo verdadeiro e eficaz, feito pelo Salvador, quando envia o Espírito Santo para regenerar o pecador”. b) Ao dizer “cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos seus pecados”, Pedro não afirma que o batismo por si só cancelaria os pecados do povo, como não perdoou os pecados de Simão o mago, que mesmo sendo batizado por Filipe (At. 8:9-13), continuou na perdição (άπώλειαν [apôleian]= arruinar, perecer, destruir) e laço de iniqüidade (At. 8:20-24). Porém, o batismo testemunharia o que já havia sido feito no momento do arrependimento. Por isso o arrependimento sempre vem antes do mesmo. O batismo agora recebido simbolizaria a purificação dos pecados, feita no arrependimento sincero, pois para o autor do livro de Atos o arrependimento é a porta para a salvação, para a remissão dos pecados (vd. At. 3:19; 5:31; 10:43; 13:38-39; 16:31), não o batismo com água, ele é sempre conseqüência. 2- a) At. 22:16: “E agora, que está esperando: Levante-se, seja batizado e lave os seus pecados, invocando o nome dele’”. (NVI, grifo meu). Este é um dos textos mais evidente para mostrar a relação entre a ordenança do batismo no Novo Testamento e o lavamento (άπόλουσαι= ápólousai) dos pecados. A ligação é muito clara e mostra o batismo como sinal exterior de uma limpeza /purificação interior. (1) b) Observe que no relato do encontro de Ananias com Paulo recém convertido, Ananias já o trata como irmão antes mesmo de ele ser batizado (At. 9:17; 22:13). Para Ananias, não seria o batismo praticado a seguir que transformaria Paulo em um irmão, o batismo seria apenas algo que simbolizaria sua limpeza espiritual: “Lave os seus pecados”. Limpeza essa já ocorrida naquele Paulo que já estava contrito com Deus e orando. 3- a) 1Pd. 3:21: “e isso é representado pelo batismo que agora também salva vocês – não a remoção da sujeira do corpo, mas o compromisso de uma boa consciência diante de Deus – por meio da ressurreição de Jesus Cristo” (NVI). Aqui o autor bíblico estabelece uma relação tipológica entre o dilúvio e o batismo. Ele diz que o batismo é uma lavagem purificadora da carne, mas que essa lavagem não é o que salva. ... não é a remoção da imundícia da carne. No sentido mais simples, essa expressão descreve os efeitos de um banho (limpeza do corpo). Mas a escolha dos termos parece sinalizar algo mais. Apothesis era quase um termo técnico entre os primeiros cristãos para designação daquilo que tinha de ser “removido”, “despojado”, as coisas que os cristãos tinham de abandonar por não serem compatíveis com a nova vida em Cristo... Então, dizer que o batismo não é essa remoção do mal em nós, poderia significar aqui uma advertência contra concepções mágicas do batismo. (2) Assim, Pedro ao escrever e citar o batismo cristão, sabendo do entendimento que os seus leitores tinham da cerimônia como um rito purificador, se apressa a dizer que o mesmo é um reflexo da salvação, mas não a realidade em si. b) Portanto, o entendimento do significado do batismo para a Igreja no Novo Testamento, era como se representasse a limpeza, a purificação dos pecados, assim como eram também entendidas as purificações do Antigo Testamento e o batismo praticado por João. Berkhof escreve: “Esta idéia de purificação era a coisa pertinente a todos os batismos do Antigo Testamento, e também no batismo de João, Sl. 51:7; Ez. 36:25; Jo. 3:25-26. ... Além do mais a Bíblia deixa muito claro que o batismo simboliza a limpeza espiritual ou a purificação”. (3) Continua... NOTAS ______________ 1) “O batismo no Novo Testamento é sinal exterior de uma limpeza interior”. Bíblia de Estudo de Genebra (NT). p. 1304 2) MUELLER, Ênio R. 1 Pedro. Introdução e comentário (São Paulo: Vida Nova, 1991), pp. 220-221. 3) [1] BERKHOF, L., p. 751 (Tradução minha).

POR QUE BATIZO POR ASPERSÃO (II) Joelson Gomes


POR QUE BATIZO POR ASPERSÃO (II) Joelson Gomes II- O SIGNIFICADO DO BATISMO i- os contemporâneos de João Batista. Depois que mostramos que o batismo de João tem sua origem nas purificações judaicas do Antigo Testamento, agora vamos determinar o que significava o batismo para as pessoas que iam ao seu encontro para serem batizadas a) Leonhard Goppelt é enfático ao afirmar: “Sem dúvida, o batismo dos discípulos era como o de João, um batismo de arrependimento para a remissão dos pecados, isto é, um banho de água que purificava de tudo o que ocorrera até então e que propiciava perdão e arrependimento”.(1) Werner Georg Kúmmel demonstra ter a mesma compreensão: Contudo, pode-se dizer, com grande probabilidade, que o batismo era compreendido como um sacramento relacionado com o iminente juízo final, o qual equipava e purificava a pessoa que se arrependia e se deixava batizar por João, para que assim pudesse subsistir diante do juízo final.(2) Além da opinião destes eminentes teólogos, F. F. Bruce, também faz uma observação muito própria aqui: “Ensinava João que o batismo era aceitável a Deus desde que lhe sujeitassem não com vistas à remissão de certos pecados apenas, mas à purificação do corpo, se a alma já estivesse purificada pela justiça”.(3) b)Assim, a Teologia tem a compreensão de que era como um símbolo de purificação que os contemporâneos de João Batista entendiam o batismo. As pessoas iam até João porque viam no uso que o mesmo fazia da água um símbolo do lavamento de suas impurezas. Usavam a água cerimonialmente para se purificarem como os seus antepassados do Antigo Testamento sempre a usaram. As escrituras têm um texto-chave para confirmar este entendimento, é o seguinte: Depois disso Jesus foi com os seus discípulos para a terra da Judéia, onde passou algum tempo com eles e batizava. João também estava batizando em Enom, perto de Salim, porque havia ali muitas águas, e o povo vinha para ser batizado. (Isto se deu antes de João ser preso.) Surgiu uma discussão entre alguns discípulos de João e um certo judeu, a respeito da purificação cerimonial (Jo. 3:22-25. NVI). c) A passagem é clara e didática. O evangelista começa falando da atividade batismal paralela entre João e os discípulos de Jesus (22-14) (cf. Jo. 4: 1), em seguida ele diz que após observar João batizando, um judeu começou uma discussão sobre a purificação (25). Você pode perguntar: Por que a discussão foi sobre a purificação, se o que o judeu observou foram os batismos? A resposta é lógica, João quer mostrar como os batismos observados por este judeu eram entendidos. Para este judeu o batismo que ele viu João praticando era uma cerimônia de purificação, assim como as cerimônias purificadoras que o povo judeu praticava já há tanto tempo, e que estavam prescritas na Lei de Moisés. Alvah Hovey observa: O judeu, fosse amigo ou inimigo de Jesus, sem dúvida havia se informado que as multidões estavam recebendo o batismo da parte do Senhor; e esta informação levou a uma discussão sobre a origem e a significação do rito como símbolo de purificação. Teria Jesus o mesmo que João, o direito de administrá-lo? Se era assim. Significaria o mesmo administrado por João quando era administrado por Jesus? Ou seria seu valor maior neste caso que naquele? (4) É cristalina a compreensão dos contemporâneos de João Batista, segundo o texto analisado, do seu rito batismal como significando uma purificação simbólica. L. Berkhof também afirma que a idéia de purificação era algo pertinente a todos os batismos do Antigo Testamento, e também ao batismo de João. (5) João Batista não introduziu uma novidade no seu tempo, ele veio fazendo algo que os seus contemporâneos já praticavam e que continuaram interpretando como sinal de purificação. O batismo de João está, pois, na linha das purificações judaicas do Antigo Testamento, e era entendido assim na sociedade da época. Continua... NOTAS _____________ 1) Teologia do Novo Testamento, p. 262 (Grifos dele sublinhados meus). 2) Síntese Teológica do Novo Testamento, 4ª ed. (São Paulo: Paulus/Teológica, 2003), p. 49 (Grifo meu). 3) Merece Confiança o Novo Testamento? 2ª Ed. (São Paulo: Vida Nova, 1990), p. 139. 4) O Evangelho Segundo João, 3ª ed. (El Paso: Casa Bautista de Publicaciones, 1973), p.142. 5) Teologia Sistemática, 3a ed. rev. (Grand Rapids: T.E.L.L., 1976), p. 751.

POR QUE BATIZO POR ASPERSÃO (I) Joelson Gomes


POR QUE BATIZO POR ASPERSÃO (I) Joelson Gomes Introdução: A forma de executar a cerimônia de batismo tem ao logo dos séculos levantado algumas discussões. Existem igrejas que só batizam por aspersão, e igrejas que não aceitam quem batiza de outra forma que não seja a imersão. Até dizem que na Bíblia era assim que se batizava, mergulhado o candidato em água e que a palavra grega baptizô tem só esse significado. Assim, quem batiza de outra forma que não seja imergindo a pessoa em água está indo contra o significado da palavra. O que fazer diante do fato? Ir para as Escrituras e ver como realmente elas falam da forma de batismo. Neste estudo nossa missão é saber se na Bíblia e na história os cristãos batizavam por imersão ou por aspersão. Então mãos à obra. I- A ORIGEM DO BATISMO a) Para saber a forma como os cristãos da Bíblia batizavam temos que ir em busca da origem do batismo. De onde veio o batismo? Como ele se originou? A pessoa que primeiro apareceu batizando na Bíblia foi João Batista (Mt. 3: 1-12). Mas de onde João tirou esta cerimônia? b) Os especialistas no assunto encontram o fundo histórico para este batismo de João, e conseqüentemente, também para o batismo cristão, nos ritos de purificação ordenados na Lei de Moisés, e praticados pelos judeus desde o período do Antigo Testamento. c) O The Interpreter’s Dictionary of the Bible é enfático ao afirmar: “Os antecedentes do batismo cristão estão fundados dentro do judaísmo.” (1) O batismo praticado por João Batista, que é o antecedente do batismo cristão, vem das purificações judaicas, João apenas dá-lhe um significado mais profundo. George Eldon Ladd assegura: É possível que o fundo histórico explicativo da origem do batismo de João não seja nem o batismo praticado em Qunran, nem o de prosélitos, mas simplesmente as abluções cerimoniais previstas no Velho Testamento. Os sacerdotes eram obrigados a se lavarem em sua preparação para ministrarem no santuário, e do povo se exigia que participasse de certas abluções em várias ocasiões (Levítico 11 -15; Números 19). Muitas declarações proféticas, que eram bem conhecidas, exortavam a uma purificação com a água (Isaías 1: 16 e ss. Jeremias 4: 14), e outras antecipam uma purificação a ser feita por Deus nos últimos dias (Ezequiel 36:25; Zacarias 13: 1). (2) Realmente isto pode ser visto num fato importante notado por Charles Hodge, isto é, que o batismo que João veio praticando, não foi uma novidade inventada pelo mesmo, e que povo da época não conhecia. (3) Quando João aparece batizando no deserto (Jo. 3: 1-6), as pessoas não ficam surpresas, como se ele trouxesse uma cerimônia nova. O que era novo, era a doutrina que pregava, não a cerimônia que praticava. Esta prática todos conheciam desde há muito tempo. Era algo que esperavam ver o Messias fazer, bem como todo profeta verdadeiro. Por isso, quando João lhes disse que ele não era o Cristo, nem Elias, nem o profeta, a pergunta imediata que lhes fizeram, foi: “Por que, pois, batizas?” (Jo 1: 19-25), dando a entender, claramente, duas coisas: a) Que os profetas tinham o costume de batizar, e b) Que esperavam que o Messias, quando viesse, faria o mesmo. (4) d) Existem vários textos bíblicos que provam que os judeus realmente praticavam muitas purificações com água no seu dia a dia, (5) e que para estas purificações era usado o verbo grego βαπτίζω (baptízô). Isto pode ser comprovado pelo grego bíblico (Mc. 7:3-4; Lc. 11:38; Hb. 6:2; Hb. 9:10). e) Portanto, por todos os textos mostrados, vemos que as purificações com água era coisa corrente no judaísmo bíblico, e que estas mesmas purificações são chamadas de βαπτισμοίς (baptismoís) no idioma grego. Elas eram partes da vida religiosa do povo de Israel, não sendo uma novidade criada por João Batista. João apenas lhes dá um novo significado, (6) mas sua prática está na linha das práticas antigas do seu povo. Portanto, é ali, nos batismos judaicos do Antigo Testamento que ele encontra a base para a sua cerimônia de purificação com água, o seu batismo. Continua... NOTAS __________ 1) New York: Abingdon Press, 1962 p. 348 (Tradução minha). 2) Teologia do Novo Testamento, 2ª ed. (Rio de Janeiro: JUERP, 1993), p. 40. 3) O Batismo Cristão. Imersão ou Aspersão? (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1988), p. 13. 4) Ibid.p. 23. 5) Ibid, pp. 20-21. 6) Ver GOPPELT, Leonhard, Teologia do Novo Testamento, 3a ed. (São Paulo: Teológica, 2003), pp. 75-76. LADD, George Eldon. p. 40.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Provando os espiritos - John MacArthur

quinta-feira, 10 de março de 2016

A HISTÓRIA DO SERMÃO "PECADORES NAS MÃOS DE UM DEUS IRADO"


A HISTÓRIA DO SERMÃO "PECADORES NAS MÃOS DE UM DEUS IRADO" Por George Marsden Ministério Fiel No outono 1740, a visita de George Whitefield a Jonathan Edwards trouxe consigo uma onda de entusiasmo com respeito à fé. Um novo avivamento irrompeu. Muitos clérigos da Nova Inglaterra começaram a ser itinerantes e a cruzar os interiores da região, pregando o avivamento. Pastores estabelecidos também achavam que provavelmente despertariam mais fervor espiritual se eles mesmos se aventurassem fora de suas paróquias. Ninguém tinha visto um avivamento desta dimensão antes. Até em Boston, ministros favoráveis ao avivamento registraram interesses espirituais sem precedentes e uma aparente transformação da cidade. Este grande avivamento também cresceu dramaticamente em intensidade. Em resposta à pregação de avivamento, pessoas choravam frequentemente pelo estado de sua alma, desfaleciam e eram até tomadas de êxtases. Edwards aproveitou o momento de uma maneira que tem sido lembrada por muito tempo. Seguindo as novas tendências do avivamento, ele alterou seus sermões para criar uma intensidade dramática e começou a pregar mais fora de sua paróquia. Essa combinação levou ao mais famoso – ou infame – incidente de sua vida: a pregação de “Pecadores nas mãos de um Deus irado”, em Enfield (Connecticut). O ambiente era uma vila próxima da fronteira de Massachusetts e Connecticut, em meados de julho de 1741. A cidade vizinha, Suffield, estivera experimentando um avivamento admirável por algum tempo. No domingo, três dias antes do seu sermão em Enfield, Edwards, como um ministro convidado, presidira um culto de Ceia do Senhor em que um número admirável de 97 pessoas foram recebidas como membros comungantes. O avivamento em Suffield havia produzido intensas erupções de êxtases. Na segunda-feira, depois do culto de comunhão, Edwards pregou numa “reunião privada” para uma multidão aglomerada em dois grandes cômodos de uma casa. Um visitante que chegara depois do sermão disse que a uma distância de 400 metros de podia se ouvir berros, gritos e lamentos, “como de mulheres em dores de parto”, quando as pessoas agonizavam pelo estado de sua alma. Alguns desmaiaram ou entraram em transe; outros foram tomados de extraordinário chacoalho no corpo. Edwards e outros oraram com muitos dos consternados e levaram alguns a “diferentes graus de paz e alegria, alguns a enlevo, tudo exaltando o Senhor Jesus Cristo”, e exortaram outros a se achegarem ao Redentor. Dois dias depois, Edwards se uniu a um grupo de pastores visitantes que estava tentando propagar o avivamento até Enfield, e lhe pediram, tendo em mente, sem dúvida, o seu sucesso em Enfield, que pregasse um sermão. Edwards não era como Whitefield, que poderia cativar uma congregação por meio de eloquência dramática e espontânea. Sua voz era fraca, e pregava com base num manuscrito que ele havia quase memorizado. Usava poucos gestos e fazia pouco contato de olhos. Dizia-se que ele parecia estar fitando a corda do sino no fundo da igreja. Apesar disso, seus sermões eram uma combinação de lógica muito clara e intensidade espiritual que poderia, às vezes, encantar seus ouvintes. No caso de “Pecadores”, diferentemente de muitos dos seus sermões, ele acrescentou muitas ilustrações vívidas. A combinação se revelou poderosa. “Pecadores” é citado habitualmente como um exemplo da severidade da pregação de fogo do inferno na América primitiva. Entretanto, vê-lo apenas como isso é perder de vista maior parte da verdade. Os pregadores desta época pregavam com regularidade sobre o inferno porque acreditavam que ele era uma realidade terrível sobre a qual as pessoas precisavam ser alertadas. Eles consideravam a doutrina da punição eterna como misteriosa e aterrorizante, mas o próprio Jesus se referira a ela, e a maioria dos cristãos, em todas as eras, o entendera no sentido real. Alertar os paroquianos quanto ao perigo real era uma coisa amável a ser feita, e, quanto mais um ministro pudesse ajudá-los a sentir verdadeiramente seu perigo, tanto mais eficaz era a advertência. Até pregadores de um tipo liberal usavam a doutrina das recompensas e punições eternas para ajudar a controlar as pessoas moralmente. Para os cristãos orientados por conversões, mais do que moralidade estava em jogo. Evangélicos como Edwards falavam de “avivamentos” porque as pessoas que eram cegadas pelos prazeres de seus pecados necessitavam ser vivificadas para ver seu imenso perigo e o remédio de Deus em Cristo. No famoso sermão de avivamento de Edwards, ele admitiu o fogo do inferno como algo real e colocou a ênfase na solene tensão entre o julgamento de Deus e a misericórdia de Deus. Edwards apresentou Deus como o juiz perfeitamente justo que estava corretamente indignado em face da rebelião dos seres humanos contra seu amor. Ao mesmo tempo, Deus havia se restringido misericordiosamente, por um tempo, na execução de seus juízos, para dar aos pecadores uma oportunidade de receberem o amor redentor de Cristo e serem salvos da condenação horrível, justa e certa. Edwards formulou as imagens impressionantes do sermão ao redor da ira de Deus iminente e retida por muito tempo. “As negras nuvens da ira de Deus [estão] pairando sobre a nossa cabeça, cheias de tempestade horrível e grandes trovões.” Ou “como grandes águas que são represadas no presente; elas aumentam cada vez mais e sobem cada vez mais”. Outra vez, “o arco da ira de Deus está armado, e a flecha está pronta na corda, e a justiça dispara a flecha em seu coração e desarma o arco”. Assim, Edwards acumulava imagem sobre imagem. Além disso, ele insistia em que não era a ira ou a justiça que estava errada, mas a pecaminosidade essencial de cada pessoas que tornava justo o julgamento. “A sua impiedade o torna tão pesado quanto o chumbo e o faz tender para baixo, com grande peso e pressão, rumo ao inferno”. “Homens não convertidos andam sobre o abismo do inferno, em uma cobertura podre”, e podem cair a qualquer momento. Ou na passagem mais famosa: “O Deus que o segura sobre o abismo do inferno, muito mais do que alguém segura uma aranha ou algum outro inseto abominável sobre um fogo... não é nada, senão a mão de Deus que o segura para não cair no fogo cada momento; e o fato de que você não foi para o inferno na noite passada tem de ser atribuído a nada mais”, ou “visto que você se levantou nesta manhã”, ou “visto que você está sentado aqui na casa de Deus”. “Ó pecador!”, ele apelou. “Considere o terrível perigo em que você está... você está pendurado em um fio muito tênue, e as chamas da ira divina ao redor dele, prontas a cada momento a queimá-lo, e queimá-lo totalmente; e nada você tem... em que segurar para salvar a si mesmo... nada que possa fazer para levar a Deus a poupá-lo por mais um momento.” Edwards nunca terminou o sermão em Enfield. O tumulto se tornou muito grande quando a audiência foi tomada por gritos, lamentos e clamores: “O que farei para ser salvo? Oh! estou indo para o inferno! Oh! o que farei por Cristo?” Um dos ministros registrou que “os gritos agudos e clamores eram comoventes e admiráveis”. Várias “pessoas foram esperançosamente mudadas naquela noite. Oh! que prazer e alegria havia em seus semblantes!” O sermão e seus efeitos foram ainda mais assustadores porque a cacofonia no recinto impediu Edwards de chegar à parte que abordava a misericórdia de Deus: “E agora vocês têm uma oportunidade extraordinária, um dia em que Cristo abriu amplamente a porta de misericórdia e está à porta chamando e clamando, com voz alta, a pobres pecadores”. Estes eram temas que Edwards pregava frequentemente em seus outros sermões. Neste dia específico, ele planejara lembrar os ouvintes de tão grande provisão, de como muitos outros tinham ouvido o chamado de Cristo com amor e alegria e de “quão terrível é ser deixado para trás num dia como esse!” Ironicamente, seus ouvintes o impediram de chegar às boas novas que lhes viera comunicar. Edwards podia, literalmente, amedrontar uma audiência, mas também possuía um lado muito mais gentil. Temos um vislumbre dessa qualidade de cuidado pastoral em uma carta de conselho que Edwards escreveu naquele mesmo verão. Deborah Hathaway, uma jovem de 18 anos convertida no avivamento de Suffield, se voltara a Edwards em busca de conselho. Por isso, ele ofereceu uma lista de orientações para jovens cristãos. Em um tempo, esta carta ficou talvez mais amplamente conhecida do que “Pecadores”, visto que nos anos anteriores à Guerra Civil Americana ela foi impressa em grandes números como um folheto intitulado “Conselho a Jovens Convertidos”. Na carta, Edwards salientava a importância de humildade e de não ser desanimado. O tom de Edwards na carta oferece um impressionante contraste com “Pecadores nas Mãos de um Deus Irado”. O Deus trino é não apenas o espantosamente justo juiz, mas também o Cristo amável, cujas mãos são gentis. “Em todo o seu proceder”, Edwards instou, “ande com Deus e siga a Cristo como uma criança pequena, frágil e dependente, agarrando a mão de Cristo, mantendo os olhos nas marcas das feridas no lado e nas mãos dele, de onde vem o sangue que purifica você do seu pecado”. _____________________________ Fonte: trecho do livro "A Breve Vida de Jonathan Edwards", por George Marsden.

quarta-feira, 9 de março de 2016

A SINGULARIDADE DO AMOR CRISTÃO Por Jonathan Edwards


A SINGULARIDADE DO AMOR CRISTÃO Por Jonathan Edwards Fiel A singularidade da caridade cristã, ou do amor cristão, se evidencia pelas seguintes marcas: Primeira, toda caridade e amor cristãos procede do mesmo Espírito que influencia o coração. O genuíno amor cristão se origina do sopro do mesmo Espírito, seja para com Deus, seja para com o homem. O Espírito de Deus é o Espírito de amor, e quando ele adentra a alma, o amor também entra aí com ele. Deus é amor, e aquele que tem Deus habitando em si por meio de seu Espírito, também terá o amor habitando em si. A natureza do Espírito Santo é amor; e é por comunicar-se, em sua própria natureza, aos santos, que seus corações se enchem da caridade divina. Disto descobrimos que os santos são participantes da natureza divina, e o amor cristão é chamado de “amor do Espírito” (Rm 15.30) e “amor no Espírito” (Cl 1.8), e as próprias entranhas do amor e misericórdia parecem significar a mesma coisa que a comunhão do Espírito (Fp 2.1). É também o mesmo Espírito que infunde amor para com Deus (Rm 5.5); é pela habitação desse mesmo Espírito que a alma permanece no amor para com Deus e para com o homem (1Jo 3.23, 24; 4.12, 13). Segunda, o amor cristão, seja para com Deus, seja para com o homem, é operado no coração pela mesma obra do Espírito. Não há duas obras do Espírito de Deus, uma a infundir um espírito de amor para com Deus, e a outra a infundir um espírito de amor para com os homens; mas, ao produzir uma, o Espírito produz também a outra. Na obra de conversão, o Espírito Santo renova o coração, dando-lhe uma disposição divina (Ef 4.23); assim, é uma e a mesma disposição divina que é operada no coração, a qual se manifesta em amor, seja para com Deus, seja para com o homem. Terceira, quando Deus e o homem são amados com um amor realmente cristão, ambos são amados com base nos mesmos motivos. Quando Deus é amado de uma maneira correta, ele é amado por sua excelência e pela beleza de sua natureza, especialmente pela santidade de sua natureza; e é proveniente do mesmo motivo que os santos são amados – por causa da santidade. Todas as coisas que são amadas com um amor realmente cristão são amadas com base no mesmo respeito para com Deus. Amor para com Deus é o fundamento do gracioso amor para com os homens; e os homens são amados, ou porque em algum aspecto se assemelham a Deus, na posse de sua natureza e imagem espiritual, ou em razão da relação que mantêm com ele na capacidade de seus filhos ou criaturas – como aqueles que são abençoados por ele, ou a quem sua misericórdia é oferecida, ou de alguma outra maneira por consideração a ele. Observe-se apenas que, embora o amor cristão seja um em seu princípio, contudo é distinguido e denominado com respeito a seus objetos e os modos de seu exercício e seus graus. Além dessas marcas, a caridade será também uma evidência da verdadeira fé salvadora, que distingue os verdadeiros cristãos. Isso pode ser visto de duas maneiras: Primeira, que o amor disporá o coração a todos os atos próprios de respeito, seja para com Deus, seja para com o homem. Isto é evidente, visto que um genuíno respeito, seja para com Deus, ou seja para com o homem, consiste em amor. Se uma pessoa ama a Deus sinceramente, este amor a disporá a render-lhe todo o respeito próprio; e os homens não carecem de nenhum outro incentivo para mostrar, uns aos outros, todo o devido respeito, senão do amor. O amor para com Deus disporá uma pessoa a honrá-lo, a cultuá-lo e a adorá-lo, e sinceramente reconhecer sua grandeza, glória e domínio. E assim o amor disporá a todos os atos de obediência a Deus; pois o servo que ama a seu senhor, e o súdito que ama a seu soberano, se disporão à sujeição e obediência próprias. O amor disporá o cristão a portar-se para com Deus como um filho para com seu pai; em meio às dificuldades, recorre ao pai por auxílio e põe nele toda sua confiança; como também é natural, em caso de necessidade ou aflição, recorrermos a quem amamos em busca de compaixão e socorro. Ele nos levará também a dar crédito à sua palavra e a depositar nele nossa confiança; pois não podemos suspeitar da veracidade daqueles com quem mantemos plena amizade. Ele nos disporá a louvar a Deus pelas bênçãos que dele recebemos, assim como nos dispomos à gratidão por qualquer bondade que recebemos de nossos semelhantes a quem amamos. O amor ainda disporá nossos corações à submissão à vontade de Deus, pois somos mais dispostos a fazer a vontade dos que amamos do que a dos outros. Naturalmente, desejamos satisfazer e ser agradáveis aos que amamos; e a verdadeira afeição e amor para com Deus disporão o coração ao reconhecimento do direito que Deus tem de governar, e que ele é digno de fazê-lo, e assim esse coração se disporá à submissão. O amor para com Deus nos disporá a andar humildemente com ele, pois aquele que ama a Deus se disporá a reconhecer a vasta distância entre Deus e ele. A essa pessoa será agradável exaltar a Deus, a pô-lo acima de tudo mais e a encurvar-se diante dele. O verdadeiro cristão se deleita em exaltar a Deus com seu próprio aviltamento, porquanto ele o ama. Ele está pronto a reconhecer que Deus é digno disto, e se deleita em lançar-se ao pó diante do Altíssimo, movido de sincero amor por ele. E assim uma devida consideração da natureza do amor mostrará que ele dispõe os homens a todos os seus deveres para com seus semelhantes. Se os homens nutrem um sincero amor por seus semelhantes, esse amor os disporá a todos os atos de justiça a esses semelhantes – pois o amor e amizade reais nos disporão a dar sempre aos que amamos o que lhes é devido e jamais agir errado com eles: “O amor não pratica o mal contra o próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor” (Rm 13.10). O mesmo amor nos disporá a sermos verdadeiros para com nossos semelhantes e tenderá a impedir toda mentira, fraude e engano. Os homens não se dispõem à fraude e traição contra os que amam; pois tratar assim os homens equivale a tratá-los como inimigos; o amor, porém, destrói a inimizade. Assim o apóstolo faz uso da unidade que deve haver entre os cristãos, mediante o argumento de induzi-los à verdade que deve haver entre uma pessoa e outra (Ef 4.25). O amor nos disporá a andarmos humildemente entre os homens; pois um amor real e genuíno nos inclinará a nutrirmos pensamentos elevados acerca dos outros e a pensarmos que eles são melhores que nós. Ele disporá os homens a se honrarem reciprocamente, pois todos são naturalmente inclinados a pensar de modo sublime sobre aqueles a quem amam e a render-lhes honra; de modo que, pelo amor, se cumprem aqueles preceitos: “Tratai a todos com honra, amai aos irmãos” (1Pe 2.17); “Nada façais por partidarismo, ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo” (Fp 2.3). O amor disporá ao contentamento na esfera em que Deus nos colocou, sem que cobicemos as coisas que nosso semelhante possui, ou o invejemos em razão de algo bom que porventura possua. Ele disporá os homens à mansidão e brandura em sua conduta para com seus semelhantes, e a não tratá-los com raiva ou violência, ou com um espírito acalorado, e sim com moderação, serenidade e mansidão. Ele refreará e restringirá todo espírito de amargura; pois no amor não existe amargura, e sim uma disposição e afeto da alma gentil e doce. Ele prevenirá as rixas e contendas, e disporá os homens a um comportamento pacifista, bem como a perdoar o tratamento injurioso recebido de outros; como lemos em Provérbios: “O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões” (Pv 10.12). O amor disporá os homens a todos os atos de misericórdia para com seus semelhantes, quando estiverem enfrentando alguma aflição ou calamidade, pois somos naturalmente dispostos à piedade para com os que amamos, quando são afligidos. Ele disporá os homens a fazer doação aos pobres, a carregar as cargas alheias e a chorar com os que choram, tanto quanto a alegrar-se com os que se alegram. Ele disporá os homens aos deveres que devem uns para com os outros em seus diversos lugares e relações. Ele disporá um povo a todos os deveres para com seus governantes e a dar-lhes toda aquela honra e submissão que são parte de seu dever para com eles. E disporá os governantes a liderar o povo sobre o qual são postos, com justiça, seriedade e fidelidade, buscando seu bem, e não por algum capricho pessoal. Ele disporá um povo a todo dever legítimo para com seus pastores, a atentar bem para seus conselhos e instruções, e a submeter-se a eles na casa de Deus, a sustentá-los com simpatia e a orar por eles, como aqueles por cujas almas eles velam; e disporá os ministros a buscarem fiel e incessantemente o bem das almas de seu povo, a velar por eles como quem tem de prestar conta. O amor disporá ao bom relacionamento entre superiores e inferiores: disporá os filhos a honrarem seus pais, os empregados a serem obedientes a seus patrões, não porque estejam olhando, mas com um coração singelo e sincero; e disporá os patrões ao exercício da brandura e bondade para com seus empregados. Assim o amor deve dispor a todos os deveres, seja para com Deus, seja para com o homem. E se ele assim dispõe a todos os deveres, então, segue-se que ele é a raiz, a fonte e, por assim dizer, a abrangência de todas as virtudes. Ele é um princípio que, se bem implantado no coração, sozinho será suficiente para produzir toda a boa prática; e toda a disposição correta para com Deus e para com o homem se acha sumariada nele e provém dele como o fruto da árvore, ou a corrente da fonte. Segunda, a razão ensina que são infundadas e hipócritas todas as pretensas realizações ou virtudes que porventura existam sem o amor. Se não houver amor no que o homem faz, então em sua conduta não há verdadeiro respeito para com Deus ou para com os homens; se é assim, então, certamente não existe sinceridade. Sem o legítimo respeito para com Deus, a religião equivale a nada. A própria noção de religião entre a raça humana é que ela é o exercício e expressão das criaturas desse respeito para com o Criador. Mas se não houver nenhum respeito ou amor genuíno, então não há no homem religião real, senão que ela é irreal e fútil. Assim, se a fé de uma pessoa for de tal espécie que não haja nela verdadeiro respeito para com Deus, a razão ensina que ela deve ser sem efeito; pois se nela não houver amor para com Deus, então não pode haver verdadeiro respeito para com ele. Disto transparece que o amor está sempre contido numa fé genuína e viva, e que ele é a vida e a alma genuínas e legítimas da fé, pois sem o amor a fé é tão morta quanto está morto o corpo sem a sua alma; sendo o amor o que distingue uma fé viva de todas as demais. Mais adiante falaremos disto com mais detalhes. Sem amor para com Deus, reiterando, não pode haver uma genuína honra para com ele. Uma pessoa jamais será cordial na honra que parece render àquele a quem não ama; de modo que, sem amor, a honra ou culto que alguém aparenta prestar é hipócrita. E assim a razão ensina que não há sinceridade na obediência que é rendida sem amor; pois, se não houver amor, nada do que é feito é espontâneo e livre, mas tudo parece ser forçado. Assim, sem amor, não pode haver submissão sincera à vontade de Deus, e não pode haver confiança e entrega real e cordial a ele. Aquele que não ama a Deus jamais confiará nele; jamais vai querer, com verdadeiro anelo da alma, lançar-se nas mãos de Deus, ou nos braços de sua misericórdia. Assim, por mais que haja nos homens um bom relacionamento com seus semelhantes, contudo a razão ensina que o mesmo é totalmente inaceitável e fútil, se ao mesmo tempo não houver respeito real no coração para com esses semelhantes, se a conduta externa não for inspirada pelo amor íntimo. E destas duas coisas tomadas juntas, a saber, que o amor é de tal natureza que produzirá todas as virtudes, e ele dispõe ao cumprimento de todos os deveres para com Deus e para com os homens, e que sem ele não pode haver virtude sincera, e nenhum dever cumprido com propriedade, a veracidade da doutrina consiste em que toda verdadeira e distintiva virtude e graça cristãs podem ser sumariadas na caridade. ___________________________ Fonte: trecho do livro "A Caridade e Seus Frutos de Jonathan Edwards", lançamento de Junho/2015 da Editora Fiel.